sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Poeta de cara nova.



Edital "Pôr do sol de outono"


EDITAL Pôr do sol de Outono Nº0001
A Empresa Panela de Pedra Restaurante promoveu no dia12 de maio de esse ano de 2013 (Dia das Mães), um brinde as mamães que almoçaram na sua sede na Rua 14 nº 788 esquina com a Avenida 17 com um livro do autor José A. Rodrigues cujo título denomina: “Pôr do Sol de Outono”.
Em parceria com o autor, novamente a Empresa Panela de Pedra Restaurante fará mais uma promoção. Nessa promoção, as pessoas irão concorrer a um brinde de nove almoços, do primeiro ao terceiro lugar.
O terceiro colocado, ou colocada, receberá o brinde de 2 (duas) refeições.
O segundo colocado, ou colocada, receberá o brinde de 3 (três) refeições.
O primeiro colocado, ou colocada, receberá o brinde de 4 (quatro) refeições.

Para participar dessa promoção, os candidatos terão de seguir as regras abaixo descritas.

A Empresa estará promovendo mais esse evento da seguinte forma:

1- As pessoas que leram o livro “Pôr do Sol de Outono”, mesmo que não tenha adquirido o livro no evento promocional do (Dia das Mães) terão de fazer um resumo da estória do livro, cujo tema terá de ser resumido digitado, ou manuscrito em letras legíveis em folhas de papel A4(digitalizado), ou em folha de caderno com tamanho igual ao A4(se o resumo for manuscrito). O julgamento de cada texto levar-se-á em consideração: Erros de concordâncias; erros de ortografia e conjugação de verbo, erros esses, que poderão levar a desclassificação do candidato, ou candidata.







Os textos serão observados pelo autor, onde ele escolherá 20 (vinte) dos melhores resumos; logo em seguida, encaminhar-se-á esses textos para a Editora Nelpa com sede em São Paulo, para serem apreciados pela profissional revisora do livro “Pôr do sol de outono”, e será essa profissional quem dará a classificação do 1º ao 3º lugar, que serão os premiados.

2- O resumo terá de ter no mínimo 1 (uma) página e no máximo 2 (duas) páginas. No caso se o resumo for manuscrito, o candidato poderá usar até três paginas, devido o manuscrito tomar mais espaço na página do papel.
3- O tema de cada resumo não poderá ser totalmente igual, ou parcialmente igual a outro tema de outro candidato, sendo se for classificado como total ou parcialmente iguais, os candidatos que obtiveram textos análogos serão desclassificados.
4- O resumo da estória, além do texto referido, também deverá conter o nome completo do (a) candidato (a), endereço, número do RG, ou qualquer outro documento de identificação.
5- O participante poderá ser representado por (terceiro) desde que esteja descrito no cabeçalho do texto o nome do candidato, e o endereço; e também conter o nome e endereço do representante legal. Nesse caso, o texto no total, poderá ter (três páginas). Se o texto for manuscrito poderá ser de até 4 (quatro) páginas.
6- Todos os resumos terão de ser entregue em envelopes fechado e lacrados, com a identificação do representante e contendo em letra legível o nome: (Pôr do Sol de Outono).
7- Os envelopes poderão ser entregues na sede da empresa Panela de Pedra, sito a Rua 14 nº 788, esquina com a Avenida 17, ou, na recepção da Rádio Sefe FM.
8- A promoção iniciar-se-á no dia 1 de junho de 2013 e terá seu termino em dia ainda a ser definido, que será divulgado pela Emissora de Rádio Sefe FM e pela imprensa (Jornal).




9- O prêmio será entregue pelos representantes legais da Empresa Panela de Pedra, (Paulinho e ou Marly) em sua sede no endereço acima discriminado.
10- Poderá participar dessa promoção qualquer pessoa, de qualquer idade ou nacionalidade, desde que atenda as exigências desse edital; exceto parentes de primeiro grau do autor.
11- A Empresa Panela de Pedra Restaurante, não arcará com despesas extras que por ventura vir a ser contraída junto com a refeição ganhada na promoção; qualquer outro consumo além da refeição promocional deverá ser quitado pelo ganhador ou o seu representante legal.
O autor e a Empresa Panela de Pedra Restaurante agradecem a todos pelo apoio que tem recebido de sua clientela e mais uma vez, contam com a presença de todos em mais um evento promocional e apoio cultural as Obras do Autor José A. Rodrigues.
Guaíra-SP, 29 de maio de 2013.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013


Livro: "O justiceiro do sertão da Alta Mogiana"


O JUSTICEIRO.
Tudo começava naquele sertão
Capitulo I

O ano de 1900 começava com muita chuva naquele sertão de matas fechadas e de um verde esmeralda de esplendor inenarrável, naquele ranchinho de taipa bem na beira de um lago, saía pela chaminé uma fumaça que se dispersava em meio à umidade e o vento que o verão chuvoso trazia por aquelas paragens; no interior do ranchinho, vamos encontrar em diálogo o casal formado por: Domingos e Balbina, que sentados em volta a uma velha mesinha de tábuas rústicas e ao lado do casal, seu primogênito que brincava inocentemente sentado ao chão de terra batida. Dona Balbina embora estando em plena juventude mostrava-se com os traços de uma mulher bem mais madura que era devido à vida dura que levava ao lado do esposo na lida do roçado que dava sustento à família; com o pequeno filho que contava apenas pouco mais de um ano, trazia em seu ventre mais um filho que já se encontrava no sétimo mês de gravidez.
Seu esposo que trazia como nome de família, Domingos José de Quadro, viajava algumas léguas em lombo de burros para registrar em comarca vizinha seu filho e fazia sempre questão absoluta de conservar o nome herdado do seu pai já falecido; o pequeno Euzébio, que ainda não dominava seus passinhos com devido equilíbrio, nem mesmo podia imaginar que em breve em seu lar haveria um irmãozinho para juntos brincarem naquele sertão ainda tão primitivo. Naquele sertão que circunvizinhava com as cidades de Ituverava, Franca e Igarapava, o casal vivia isolado; dona Balbina que já se encontrava no nono mês de gravidez costurava a mão algumas roupinhas para agasalhar o filho que esperava para breves dias.
Seu esposo Domingos, se encontrava em seu roçado carpindo a pequena lavoura de arroz, quando ouviu o chamado da esposa que gritava por ele no terreiro do rancho, como ele já esperava ansioso pela chegada do segundo filho, deixou suas ferramentas ali mesmo e desceu para o ranchinho correndo, pois sabia ele, que sua esposa entrara em trabalho de parto e ele mesmo seria o parteiro, por não ter por perto ninguém que pudesse confiar tão delicado trabalho; ele já tinha experiência em partos, pois seu primeiro filho, Euzébio, foi ele mesmo que retirou das entranhas da esposa cortando o cordão umbilical com a velha tesoura de costura mergulhada em água fervente e ali naquele mesmo lugar, ele iria fazer da mesma forma com seu segundo filho que dava sinais de vir habitar o mundo onde eles viviam desde que contraíra em matrimônio a sua esposa. 
Dona Balbina já ofegante pelas fortes dores das contrações uterina, já havia colocado no velho fogão a lenha, águas em abundância para ferver e abraçada com o esposo, ela se deitou na caminha humilde feita de madeiras roliças cortadas no mesmo mato que cercava sua casinha; ali, em meio a gemidos e palavras balbuciadas em orações, Domingos segurava as mãos da esposa aguardando o momento certo de segurar na cabecinha do filhinho que dava cada vez mais sinal de chegada; com as mãos untadas em azeite de mamonas, Domingos começou a retirar o pequeno que chegava, entre o esforço físico e gritos de Balbina; incentivado por uma leve palmada, o pequeno deu sinal de vida com choro estridente e forte e ali mesmo com a velha tesoura de costura, Domingos cortou o cordão umbilical amarrando-o com uma pequena tira de embira de bananeira untada no mesmo azeite de mamonas que servia como desinfetante. Enquanto Balbina restabelecia suas forças, seu esposo segurava o filho dentro de uma pequena gamela de madeira com água morna, dando o primeiro banho ao pequeno, e ali mesmo ele olhando a esposa deitada ao leito, deu o nome de Antônio, o seu segundo herdeiro levaria pelo resto de sua vida o nome de: Antônio José de Quadro.
Passados os quarenta primeiros dias do nascimento do caçula, a vida do casal já voltara ao normal, dona Balbina agora com os dois filhos pequenos, não dava mais para ajudar seu esposo no roçado como fazia antes, mais estava sempre ao lado do esposo trazendo seu ranchinho sempre bem arrumado, com roupas limpas e fazendo a comidinha caseira sempre a tempo e à hora; depois de mais um dia de trabalho, Domingos sempre voltava para casa cansado, mas, encontrava nos braços da esposa o aconchego de uma mulher carinhosa e respeitadora. As crianças já se encontravam crescidas, Euzébio com seis anos de idade e o pequeno Antônio com quase cinco, ambos mostravam personalidades diferentes; Euzébio deixava se perder em olhar vago ao céu, parecendo sempre buscar algo que ele desconhecia, enquanto o pequeno Antônio, estava sempre ao lado do pai na lida da roça, mostrava personalidade forte e mesmo criança com menos de cinco anos, já se mostrava interessado pela velha espingarda de caça de seu pai.
Passavam-se os anos naquele sertão e os filhos de Domingos e Balbina precisavam ir a uma escola para aprender o “beabá”, distante de seu rancho a uma légua e meia, existia uma velha escola na beira da estrada que ligava as cidades de Pedregulho e Ituverava; Sr. Domingos conseguiu matricular seus filhos nessa escola, que na época era privilégio de ricos e, eles aprenderam o essencial, a ler e escrever, que como diziam nessa época do passado, que “o homem necessitava de aprender escrever o próprio nome”. Nessa época o analfabetismo dominava a grande parte da população sertaneja, pois o sustento de uma família dependia exclusivamente da força dos braços e não de inteligência e pensando assim, eram poucos os pais que insistiam em colocar os filhos na escola.
Com apenas seis meses de estudo, os filhos de Domingos já sabiam escrever os nomes e a dominar algumas palavras escritas, já era o suficiente para sobreviver no sertão; ali aos oito anos de idade as crianças já começavam a experimentar o serviço duro da roça, a lida pesada do dia a dia para sobreviver em meio a tantas dificuldades; os anos iam passando e as crianças de Domingos e Balbina iam crescendo a cada dia, e a lida do campo era o único meio de aprendizado dos dois meninos; Euzébio que contava apenas com doze anos, mergulhado sempre em seus pensamentos desconhecidos, saiu em viagem em busca de novos conhecimentos, embrenhando em meio às matas daquele sertão, ele passou alguns meses andando de um lado ao outro, voltando para casa em farrapos, com cabelos grandes e unhas sujas, enquanto seu irmão Antônio, estava sempre ao lado do pai na lida da roça. Dona Balbina sofria muito com o desaparecimento do primogênito, mas não podia fazer nada a não ser esperar pela sua volta, enquanto o caçula, sempre ao lado do pai mostrava-se com grande habilidade na pontaria da velha espingarda chumbeira.
Algumas vezes no ano, Sr. Domingos ia à cidade de Ituverava fazer algumas compras e ao seu lado sempre estava seu filho mais novo, que nessa época já contava com treze anos de idade, como de costume na época, Sr. Domingos sempre estava de porte de seu trabuco de dois canos e uma velha garrucha calibre 44 que levava atrelada a goiaca de couro cru; durante o percurso até a cidade, o menino Antônio pedia ao pai para levar a tira colo a espingarda de canos troxados, que ele exibia alegremente. Nos arredores daquele sertão existia um vilarejo por nome Capivari da Mata, era onde Sr. Domingos vendia sua colheita que na época era negociado à base de trocas de produtos, ele levava no lombo de burros partes de sua safra e trazia como troca o sal, o açúcar e o querosene, que era o combustível que alimentava o velho lampião que clareava as noites escuras na beira daquele lago onde ficava o ranchinho da família Quadro.
Quando Euzébio voltou para casa de sua primeira viagem, Sr. Domingos notou que o filho aparentava sinais de distúrbios mentais, pensava ele, que com tempo Euzébio pudesse voltar a ser normal, ele achava que a viagem e os sofrimentos enfrentados por ele, pudessem ser o causador desses distúrbios, mas, mal sabia ele que o filho mais velho tinha mesmo problemas psíquicos. Dona Balbina às vezes levava o filho mais velho nos arredores daquele sertão em casa de alguns benzedores, que na época era muito comum na redondeza, mais nunca teve nenhum êxito nesse tipo de tratamento.
Aos quinze anos de idade, Euzébio saiu novamente em viagem em busca do desconhecido, dona Balbina chorava muito, mas Sr. Domingos dizia a ela para que não preocupasse com o filho, pois ele já era um homem e tinha o direito de sair em busca de aventuras; o pequeno Antônio José de Quadro assistia tudo o que acontecia e pensava também em ganhar a estrada e seguir seu caminho, mas, ele tinha em sua mãe uma figura muito importante e em seu pai um espelho de homem, que lhe transmitia segurança e coragem; nas caçadas que fazia junto ao pai, era ele quem dominava a velha espingarda não deixando se quer perder um disparo, quando Sr. Domingos e o filho caçula saiam para a caçada, era sinônimo de carne na mesa por uns dias, pois voltavam sempre trazendo algumas pacas e cotias dependuradas na cabeça dos arreios que selavam seus burros.
Nessa última viagem de Euzébio, depois de muitos meses fora, ele retornou para casa levando a notícia, que tinha encontrado no sertão do Pedregulho, a casa do primo de primeiro grau, Sr. Jerônimo Cristino Malta e por lá, ele havia ficado nos últimos meses, trabalhando na roça junto ao primo e sua família, que nesta época, já tinha algumas crianças que ajudava no roçado; Antônio Malta, o mais velho, Maria, a primeira filha e Benedícta, a segunda filha do casal Jerônimo e Maximina; Antônio José que já alcançara os quinze anos de idade, pediu permissão ao pai para seguir em viagem em busca de conhecer o primo Jerônimo e depois de ter a permissão do pai, ele partiu levando na bagagem somente algumas poucas roupas numa pequena sacola de couro na garupa de sua mula que acabara de ganhar de presente de seu pai. Por onde Sr. Domingos andava, ele era acompanhado de seu filho Antônio e por esse motivo, o menino passou a ser conhecido por aqueles sertões como Antônio do Domingos e posteriormente sendo chamado por todos que o conhecia por Antônio Domingos; num linguajar de costume dessa época, todos o chamavam, como (Toim Dumingo).
Antônio Domingos chegou ao sertão do Pedregulho na entrada da noite e por não saber onde ficava a casa de seu primo, ele dormiu por ali mesmo em baixo de uma arvore, deixando sua besta pastando ao redor; cansado pela viagem longa no lombo de sua mula, ele pegou no sono e não deu por fé que havia bem próximo dele um indivíduo expiando-o e esperando que ele pegasse ao sono para surrupiar sua besta e levá-la embora, deixando somente o rasto para trás. Ao acordar, Antônio Domingos levou grande susto ao perceber que sua besta não se encontrava onde havia deixado pastando naquela noite, perguntou por algumas pessoas que moravam por ali, mas ninguém soube dizer do paradeiro de sua besta ruzia. (Besta Ruzia, ou ma mula Ruzia, se trata de uma cor dessa espécie de animal, que pela cor pode-se saber sua característica; se é um animal para montaria, ou para transporte de peso, no caso: arado ou carroção, ou carroça. É o DNA da ciência do homem do sertão, que eles dentro das suas carências de informações intelectuais, cursavam seus doutorados e mestrados no dia a dia do campo).
Aborrecido e cabisbaixo ele seguiu em direção ao rancho de seu primo conforme seu irmão mais velho havia lhe dito, ao chegar às proximidades do roçado, ele encontrou um homem trabalhando acompanhado de um menino que de longe, gritou ao desconhecido, se o mesmo vinha em paz. Antônio Domingos respondeu com as mãos erguidas à altura da cabeça, conforme seu pai havia lhe ensinado quando fosse interpelado por algum desconhecido e fazendo uma pequena pausa ele respondeu: _ venho de longe em busca de um parente por nome Jerônimo Malta, venho em paz! Jerônimo deu permissão que ele se achegasse mais perto e ao perceber na fisionomia do menino a aparência do irmão Euzébio que tinha ficado com ele nos últimos anos a trabalho; ali, apoiado com braço no cabo de sua enxada em baixo de uma arvore frondosa, os três conversavam e Jerônimo Malta ouvia pela primeira vez, o jovem Antônio do Domingo contar suas poucas histórias e entre elas, o roubo de sua besta ruzia.
Ao relatar toda sua história, Antônio Domingos disse ao primo, que iria ficar somente alguns dias por ali e sairia em busca de sua mula, não deixaria que nenhum desconhecido se tornasse dono de sua besta “Soberba” (esse era o nome que a besta atendia); seu primo Jerônimo ainda salientou, que por aquelas bandas existiam muita gente de caráter duvidoso a trabalho de coronéis do café, que mandavam e desmandavam naquela região; Antônio Domingos respondeu ao primo, que se encontrasse sua mula sendo usada por outra pessoa, tentaria recuperá-la sem nenhum atrito, mas, se houvesse resistência, ele sujaria suas mãos com sangue desse indivíduo e puxando da velha goiaca ele exibiu um punhal de nove polegadas de lâmina. Jerônimo era de pouca conversa e não deu muita chance de Antônio prosseguir com a conversa convidando-o para descerem até seu rancho para que ele pudesse se refazer da viagem desgastante.
Logo depois do almoço, Antônio Domingos subiu novamente ao roçado acompanhado do primo e seu filho Antônio Malta que nessa época contava com menos idade que ele, e ali, trabalhando de sol a sol ele se mostrava uma pessoa de caráter e de personalidade forte, como sempre foi ao lado de seu pai e o do irmão Euzébio. Já fazia alguns meses que Antônio Domingos estava morando na casa do primo Jerônimo, quando chegou um visinho da família Malta, aflito e desesperado, ele disse ao Sr. Jerônimo, que tal jagunço de uma fazenda ali por perto tinha mandado um recado, que dentro de três dias iria até sua casa para buscar sua esposa e tomá-la como mulher; desesperado sem saber o que fazer, ele pediu ao amigo Jerônimo que o aconselhasse. Ouvindo a conversa, Antônio Domingos pediu permissão e disse ao amigo da família Malta: _ mate o infeliz, pois assim, ele não mais fará nenhum mal a ninguém!
Chocado a com frieza do menino, Jerônimo Malta não viu outra saída a não ser Amadeu fazer valer a sua honra de homem e marido ofendido. Mas o moço ainda chocado com as palavras do rapaz, respondeu: _ Não... eu não tenho coragem de matar ninguém! Mais uma vez a resposta de Antônio Domingos deixou todos perplexos; _ eu o matarei para você, somente tem de comprar uma carabina e as munições e no dia marcado vou estar lá esperando ele ir buscar sua esposa e ao entrar em seu quintal eu derrubo-o de cima de seu burro!
Jerônimo Malta era um homem de bem, mas naquele sertão que vivia, por vezes tinha de prevalecer à força para viver e sobreviver com sua família e ali sentados no terreiro da casa, eles traçaram o plano para liquidar com o tal jagunço. Naquele mesmo dia, Jerônimo Malta e seu visinho Amadeu seguiram embarcados na velha mogiana até a cidade de Franca para comprar a arma desejada por Antônio Domingos; chegando ao armeiro, eles pediram para ver os modelos de rifles que tinham a disposição e ao expor o mostruário aos clientes, encontraram um rifle de marca winchester de calibre 44, com capacidade de quinze tiros; retirando da goiaca alguns mil-réis, eles pagaram a arma e mais uma sacola de munição que nessa época, era adquirida por peso, como hoje compramos nas feiras livres, legumes e sementes. Por sorte, eles ainda conseguiram embarcar no último trem da mogiana de retorno para casa.
Na velha estação da pequena Pedregulho, eles desembarcam em altas horas da noite e ali na marquise da estação eles pernoitaram para seguir viagem a pé no outro dia com mais segurança, mesmo estando armados, eles preferiram esperar o dia amanhecer naquele sertão, para dar sequência no retorno para casa.
No outro dia bem cedo eles saíram caminhando de volta a velha casa de taipa nos arredores daquelas furnas que circundavam o rio “Grande”, Sr. Jerônimo e seu visinho, caminhava apressados levando escondida em baixo da capa boiadeira, a winchester 44 que acabavam de adquirir; chegaram em casa por volta das dez horas da manhã, sendo aguardados por todos que os esperavam. Ao chegar a casa com a arma em punho, Antônio Domingos sorriu dizendo: _ pode mandar o tal jagunço ir para sua casa meu amigo, ele vai deitar na fumaça dessa “papo amarelo”. (papo amarelo é o apelido que deram para essa arma, por ela trazer no acabamento amadeirado uma silhueta de metal dourado) Jerônimo Malta e sua Esposa, “dona Maximina” assustaram-se com a frieza do jovem Antônio Domingos, mas diante das circunstâncias, eles não viam outra forma de ajudar o vizinho que temia perder sua jovem esposa para o tal jagunço.
Naquele mesmo dia logo depois do almoço, os três homens conversavam na sombra de uma velha paineira, que com seus galhos enfolharados refletiam o tom rosado das flores desabrochadas exalando perfume de doce fragrância, nessa conversa, Antônio Domingos disse ao primo Jerônimo, que precisaria de sua ajuda para guardar os cavalos que ele trazeria como prêmio da caçada; não ficaria escondido em sua casa, somente deixaria a noite cair para que ele pudesse voltar para casa dos pais em segurança. Naquela mesma tarde Antônio Domingos e o vizinho seguiu para casa acompanhados da jovem esposa, uma mulher linda de traços delicados que havia desposado há pouco tempo, indo morar com ele naquele sertão para começar nova vida e nesse instante, estava sendo ameaçados por um homem inescrupuloso endossado por um coronel que não respeitava a vida de ninguém.
Chegando a velha choupana de taipa e coberta por sapê, o casal de amigo ofereceu guarida ao mocinho, mas se tratando de salvaguardar a honra do casal, ele preferiu passar a noite ali mesmo rente à janelinha do rancho, pois dali, ele tinha plena visão da estrada onde o tal jagunço teria acesso à casa que agora estava sob sua responsabilidade; era uma noite de sexta-feira, com uma enorme lua cheia ao céu sertanejo, debruçado à janelinha, o menino aventureiro relembrava a mãe e o pai dali bem distante, e da mesma forma que ali estava de tocaia para matar esse homem, ele ficaria para defender sua família de qualquer indivíduo que os ameaçassem. A noite demorou mais que de costume para passar, com toda tensão que sentia, ele não via a hora de amanhecer para que pudesse descansar um pouco, enquanto o amigo ficava na espreita em seu lugar.
Sábado amanheceu ensolarado, enquanto Amadeu desleitava as vaquinhas no mangueiro, sua esposa “Rosa” preparava a merenda da manhã com alguns bolinhos de fubá; Antônio Domingos estava sentado em um velho toco de aroeira segurando sua winchester em meios as pernas com a ponta do cano apoiado ao chão. Passava um pouco das nove horas da manhã, quando Amadeu correu a janela e chamou por Antônio Domingos que sobressaltou assustado: _ Veja lá Antonio... é o homem que vem para buscar a Rosa!
Antônio Domingos fechou a janela e pediu para que eles entrassem no quarto e ali na fresta da daquela mesma janela ele ficaria esperando o momento certo de disparar a 44 em direção ao jagunço, que vinha montado em uma mula marchadeira e puxando outro animal arreado com um “Sião” (sião é um tipo de arreata para montaria feminina muito usada no passado pelas esposas de coronéis de cafés e as esposas de capatazes de fazenda) para facilitar a fuga com a esposa de Amadeu. Antônio Domingo seguro de sua pontaria, esperou que o jagunço ultrapassasse a porteira para que ele pudesse abatê-lo dentro do quintal da choupana de Amadeu; quando o jagunço aproximou do terreiro da velha casinha, ele disparou seu rifle atingindo a cabeça do mal feitor, derrubando-o sob a fumaça aos pés de sua mula.
Com o estampido da munição, o casal saiu assustado de dentro do quarto e viu o cadáver estendido ao chão e Antônio Domingo com a arma apontada novamente ao corpo caído em posição de defesa caso fosse necessário, mas ao aproximar-se do corpo, ele abaixou a arma tranquilizando o casal, dizendo: _ esse aqui não rouba mulher de mais ninguém e olhando ao infeliz caído ao chão deu uma gargalhada prazerosa e continuou: _ enquanto eu jogo o corpo no rio, vocês se arrumam para que nos possamos ir para a casa do primo Jerônimo, pois de lá, eu sigo viagem à noite para minha casa lá no chapadão! O casal assustado com tudo que estava acontecendo, arrumou algumas roupas a fim de passar aquela semana junto da família de Jerônimo Malta; Amadeu jogou terra em cima do sangue que tinha derramado do homem morto e desse lugar, ele viu Antônio Domingos jogando o corpo do infeliz dentro do rio repleto de piranhas que em breve devoraria o cadáver.
Voltando de encontro ao casal, Antônio Domingos acumulou mais uma carabina embainhada na sela da mula do homem morto e na cinta ele trazia um revolver calibre 38 de marca Colt, juntamente com cinturão repleto de balas do mesmo calibre, além de uma peixeira nordestina de cortes de dois gumes; chegando perto do casal, o menino ordenou Rosa a montar o cavalo arreado com Sião, enquanto Amadeu tomou a garupa da mula que agora pertencia a ele e saíram em disparada rumo à choupana do primo Jerônimo.
Ao chegar à casa de Jerônimo Malta, Antônio Domingo desarreou os animais dentro do mato, para que ninguém pudesse vê-los e sentados junto à sombra da mesma paineira, ele relatou com frieza o trabalho realizado. Jerônimo Malta em diálogo com os dois amigos salientou: _ nossas vidas de hora em diante se tornará um flagelo, caso o coronel Edmundo desconfiar que foi você que deu cabo a esse homem e olhando para o primo Antônio Domingos continuou: _ você logo mais a noite segue viagem para a casa de seu pai e fique por lá por um longo tempo, pois tenho certeza que o coronel Edmundo vai procurar pelo seu jagunço por aqui. Antônio Domingos respondeu ao primo: _ caso ele venha de perturbar o sossego, mande me avisar que venho aqui e acabo com todos eles, matei esse indivíduo para evitar um ato de covardia, pois é muito fácil um homem endossado por um coronel dizer que vai roubar uma mulher casada e marcar o dia de vir buscar e olhando ao amigo Amadeu ele continuou: _ se quiser ir embora comigo nessa noite, em minha casa encontraremos um jeito de vocês ficarem até que arrumem serviços por lá.
Amadeu com ar de preocupação respondeu ao amigo: _ você me deu uma grande prova de amizade Antônio, mas vou aguardar mais um pouco por aqui na companhia de Jerônimo, quem sabe eles não deem por falta do desafeto que você deu de comida as piranhas do rio.
A tarde caia entre aquela serra deixando no poente o avermelhado tom de aproximação do inverno, nesse momento, Antônio Domingos arriou a mula que era do homem do coronel Edmundo amadrinhando o cavalo que serviu de transporte a mulher de Amadeu, e ali no crepúsculo daquela tarde, ele iniciou sua viagem de volta para casa e despedindo de seus amigos ele ainda disse: _ começarei a profissão de tropeiro de hora em diante, essa mula e esse cavalo e o prêmio por ter matado aquele covarde; e empunhando a carabina que ganhou do primo Jerônimo ele ganhou a sela da besta do coronel Edmundo.
Nessa época era muito comum, as pessoas andarem armados, não existiam leis referentes à proibição de portes de armas; essas paragens sempre foi lugar de muitos perigos para os viajantes solitários, muitos animais ferozes podiam atacar cavaleiros e cavalos e as armas usadas por esses viajantes serviam de defesas nesses momentos; também era comum esses mesmos cavaleiros usarem as capas boiadeira, um tipo de capas que cobria todo o corpo do cavaleiro e também a parte de trás dos cavalos, abrigando assim, as bagagens que sempre eram levadas numa sacola de couro cru, que todos os viajantes chamavam-nas de “pala” e dessa mesma forma que abrigava as bagagens dos cavaleiros, também abrigava as armas que esses cavaleiros portavam em bainhas de couros que sempre estavam atrelados aos arreios.
Devidamente equilibrado em cima da sela, portando sua carabina na cabeça do arreio, o mocinho “Antônio Domingos” ergueu seu chapéu da cabeça em sinal de respeito e agradecimentos a todos por ali e alertando a besta na espora, ele deu início a sua viagem de volta para casa; por aqueles sertões poucas pessoas se arriscavam a viajar a noite, mas Antonio Domingos tinha somente a noite como segurança para sua viagem, mesmo não tendo nenhuma testemunha do crime que acabou de cometer, ele se sentia inseguro de viajar durante o dia, pois, a besta e o cavalo que ele estava levando embora, poderiam ser conhecidos naquela região dominada por aquele coronel sem escrúpulo que permitiu ao jagunço roubar uma mulher casada.
A noite estava clara por uma bela lua cheia que de vez, escondia entre nuvens que passavam no céu naquele sertão; subindo aquelas grotas a caminho da vila de Pedregulho, Antônio Domingos se encontrava mergulhado em pensamentos e nos escaninhos mais profundos de sua mente, ele ouvia seus pensamentos como se alguém falasse ao seu lado: _ de agora em diante não deixarei que ninguém passe por humilhações em minha frente, de posse dessas armas farei justiças as pessoas mais fracas; se vim a esse mundo com essa missão, assim farei com todas as minhas forças, enfrentarei a polícia se for preciso, viajarei por estradas desconhecidas e me esconderei em meio aos matos, mas andarei com a justiça ao meu lado... e pensando assim, ele avistou as poucas candeias que iluminavam as ruelas do Pedregulho. Ao chegar à cidade, ele saltou de sua mula em um estábulo na entrada da cidade e ali, ele viu sua besta que foi roubada quando ali chegou ha meses, irritado com o fato, ele saiu à procura do homem que havia se apossado de sua besta que seu pai lhe deu de presente no dia que ele saiu de casa para ir em busca do primo Jerônimo e entrando em um velho armazém, ele viu algumas pessoas sentadas em frente ao balcão tomado cachaça.
De posse de sua carabina winchester empunhada por debaixo da capa, ele percebeu em um dos homens um certo nervosismo, que levou o suspeitar que fosse o mesmo que tinha lhe roubado em meses atrás; encostado ao mesmo balcão, ele pediu ao proprietário que lhe servisse uma pinga para que ele pudesse dar sequência na sua viagem. O vendeiro pressentindo cheiro de encrenca em seu armazém, respondeu ao forasteiro, que o armazém estava fechando e que não poderia mais vender bebidas naquele momento; Antônio Domingos ficou em silêncio por alguns segundos e ergueu seu braço exibindo a carabina “papo amarelo” e deixando-a descansar em cima do balcão apontada para o balconista e os dois homens que ali estavam tomando cachaça, dizendo aos três: _ estou à procura do dono da besta ruzia que está no estábulo ali na entrada, por acaso pertence a algum de vocês?
O mesmo homem que Antônio Domingos notou nervosismo olhou assustado ao dono do armazém e respondeu em seguida: _ aqui por essas paragens não costumamos responder a pessoas desconhecidas e aconselho você, que acaba de tirar suas fraudas a sair imediatamente de dentro desse bar, antes... nesse momento esse mesmo homem sentiu o cheiro de pólvora queimada ainda a pouco, com o cano da carabina de Antônio Domingos encostada em seu nariz, ouvindo ele dizer: _ Cuidado com o que fala moço, somente fiz uma pergunta, pois aquela besta ruzia me pertence, foi presente de meu pai e vou levá-la embora comigo nesse momento e acendendo uma bituca de cigarro de palha ele continuou: fui roubado por alguém quando aqui cheguei, me deixando de pé e agora vou levar a besta comigo, se pertencesse a algum dos senhores, eu ia dizer a mesma coisa, mais como não deve ser nenhum de vocês que tenha me roubado, ao descobrir quem estava de posse de minha mula, diga que estou indo para o chapadão, que ainda tenho conta a ajustar com esse cabra safado. Afastando devagar andando para trás, ele ganhou a rua seguindo sentido ao estábulo onde estava sua besta ruzia.
Os dois sujeitos que se encontrava no balcão tomando cachaça ficaram boquiaberto com a audácia do menino, apesar de Antônio Domingos ter a estatura de um homem feito, mostrava ainda os traços de criança recém-saída da tenra idade, pele muito clara e o rosto enfeitado por dois olhos azuis, nariz pontiagudo e nas faces, raleada barba ruiva ainda em pelos finos, mas no olhar, ele trazia a firmeza de um homem maduro e resolvido e a sua rapidez em empunhar a arma, espantou os três indivíduos que se encontrava naquele armazém.
Antônio Domingos foi andando do outro lado da ruela de olho na porta do velho armazém com sua carabina empunhada e de gatilho armado, ele entrou no estábulo e apanhou sua mula ruzia e amadrinhou-a junto à pequena tropa que ele estava levando nessa viagem; ganhando a sela da besta marchadeira ele saiu em disparada por aquele sertão bravio, sendo acompanhado por alguns curiangos que revoavam assustados pelos barulhos dos cascos da tropa que lhe seguiam na mesma toada.
Ele viajou aquela noite inteira cortando aquelas veredas e matos, sentido a sua terra; ao amanhecer, ele se encontrava bem longe daquele lugar que teve atrito com aqueles homens, a fome lhe apertava o estomago, mas ali naquele lugar, longe de moradias, ele teve de passar todo aquele dia esperando a noite cair novamente para que ele pudesse seguir sua viagem; entrado por dentro da mata a uma distância que dava segurança a ele e aos amimais, ele desarreou a mula e deixando amarrada a beira de um pequeno regato, para que eles pudessem se refazer da viagem e se alimentarem das vegetações verdes que eram fartas nesse lugar. De espreita em cima de uma arvore, ele esperou por uma presa qualquer que pudesse passar por ali e lhe servir de almoço, foi nesse momento que surgiu uma pequena cotia caminhando distraidamente, levando o impacto de um projétil calibre 44 que a deixou imóvel e sem vida, com sua peixeira cortante, em breve Antônio Domingos estava com a pequena presa envolvida em uma pequena fogueira sendo assada para o almoço.
Depois de degustar a pequena cotia assada, ele se deitou em cima de sua capa de encosto a cabeça ao arreio e pegou ao sono, sendo acordado bem no entardecer pelo canto de um mutum que piou solitariamente no galho da arvore que ele estava dormindo embaixo; nesse momento, ele notou a mata escura pela noite que vinha chegando e mesmo cansado pela viagem da noite anterior, ele teria de seguir viagem noturna novamente, para tentar chegar a casa dos pais no outro dia, que já bem distante de onde vinha, ele agora poderia andar no claro do dia com mais segurança.
No sertão onde Jerônimo Malta vivia, o coronel Edmundo estava com homens a procura do jagunço desaparecido, o primeiro lugar onde seus homens foram procurar pistas, foram justamente na choupana de Amadeu, nesse lugar, eles encontraram vestígios de sangue no chão, mas, nessa época era muito comum as pessoas matarem porcos e deixarem o sangue dos animais escorrerem pelo chão, mas, por não encontrarem ninguém dentro da choupana, levaram os jagunços a pensarem que poderia ser que ao ter a mulher levada pelo jagunço, Amadeu pudesse ter reagido e ter sido morto por ele, que roubava sua mulher; pensando assim, os homens do coronel Edmundo atiraram fogo na velha casinha de taipa, incendiando ali, todos os pertences do casal.
Da casa de Jerônimo Malta avistava-se do outro lado do vale, a velha casinha de Amadeu ao longe em meios aos coqueirais da vereda e naquela manhã de sol, eles podiam ver a casinha sendo consumida pelas chamas; sendo consolada pelo esposo, Rosa chorava compulsivamente por ver seus sonhos sendo levados pela fumaça do incêndio criminoso. Jerônimo Malta vendo o sofrimento do jovem casal ofereceu abrigo definitivo até que eles conseguissem reaver seus pertences novamente, mas nessa época onde serviço era difícil e de remuneração baixa, provavelmente eles passariam um longo tempo morando em sua casa.
Naquele mesmo dia à tarde Jerônimo Malta recebeu uma visita dos homens do coronel Edmundo, perguntando do paradeiro de Alcebíades, o jagunço morto por Antônio Domingos em dias anteriores, Jerônimo Malta com estatura forte e semblante sério, respondeu aos homens que não tinha visto ninguém nos últimos dias por aqueles lados, de cima dos cavalos eles fizeram ameaças de entrar no quintal da casa, mas, Jerônimo apontando a espingarda na direção dos homens disse: _ se vierem como amigos serão sempre bem vindos, mas no momento e da forma como querem entrar em minha casa, levarão chumbos no peito; vão embora e leve esse recado ao seu patrão; que me deixe em paz com minha família! E ali mesmo eles deram meia volta riscando o chão com os cascos dos cavalos e foram embora prometendo voltar.
Sr. Jerônimo sabia que não iria ficar sossegado por ali, pois sabia ele, que o coronel Edmundo não era homem de aceitar recados de peão como ele era ali naquele lugar, mas, o problema era Amadeu que estava dentro de sua casa com a esposa, se os homens do coronel os vissem por ali, com certeza desconfiaria que fossem eles que deram cabo do tal de Alcebíades; o único jeito era pedir a Amadeu e Rosa para irem embora de sua casa, para que ambas as famílias pudessem viver em paz. Em conversa com Amadeu ele narrou tudo que estava pensando, pediu perdão ao amigo, mas era necessário que ele e sua esposa fossem embora naquela noite mesmo, para sua própria segurança e a segurança de sua esposa.
Amadeu, pensativo em tudo que vinha acontecendo desde o maldito dia do assassinato do jagunço, resolveu voltar a sua terra no estado de minas gerais na pequena cidade de Congonhas, hoje conhecida como Ibiraci e naquela noite mesmo eles saíram escoltados pela companhia de Jerônimo Malta e seu filho Antônio que contava apenas treze anos de idade nessa época. Na velha choupana do casal Malta, ficou somente dona Maximina e suas duas filhas pequenas; dona Maximina tinha muito medo de tudo que estava acontecendo, grávida do quarto filho ela entrava no quarto com as filhas e ficava mergulhada em orações pedindo a Deus que cuidasse do filho e do esposo naquelas estradas.
No outro dia bem cedo, eles já estavam dentro da vila de Congonhas e ali mesmo Jerônimo e o filho viraram nos cascos de volta a sua casa, agora, eles voltavam mais rápido, devido estarem somente os dois e pudessem deixar os animais andarem mais depressa. Na estrada em conversa com o filho, Jerônimo Malta disse que iria fazer a safra de arroz e de milho, vendendo o mais rápido possível e iria se mudar para terras longícuas, a fim de ficar longe de mais encrencas, como a que havia se metido nos últimos dias, mas ainda salientou ao filho, que o primo Antônio Domingos era um homem de fibra, de coragem, embora menino, ele era de muita coragem e determinação.
Com as bestas já cansadas pela longa viagem, eles chegaram a casa em altas horas da noite, encontrando a família já dormindo, sendo acordada pelos latidos do velho “sultão” que vigiava a casa deitado em baixo da velha paineira; cansados e abatidos pela viagem, eles ganham suas camas mesmo sem se banharem ouvindo pios de corujas sentadas na comunheira da capela ao lado da casa.
No outro dia bem cedo, bem antes do sol apontar seus primeiros raios, Jerônimo e Maximina se encontravam em diálogo ao lado do velho fogão de barro: _ Maximina... vim dizendo ao Antônio na viagem de volta, vamos nos mudar para bem longe daqui, vou fazer minha colheita e logo depois nós ganhamos a estrada rumo a outros sertões pelos lados da “Corredeira”! (corredeira era o nome da vila onde hoje é a cidade de Guaíra interior de São Paulo) Nessa época do passado as esposas eram totalmente submissas aos esposos, não tendo sequer direito de manifestador ao contrário.
Faltava somente o arroz para terminar de colher, quando Jerônimo recebeu novamente a visita dos homens do coronel Edmundo, desta vez, eles disseram que tinham provas que ele tinha ajudado ao casal fugir para o outro lado do estado e que o coronel não estava gostando de sua permanência por ali; Jerônimo recebeu a notícia em calafrio, mas, não deixou transparecer o pânico em que estava, olhando dentro dos olhos do porta-voz do coronel, ele respondeu: _ vivo aqui trabalhando em paz com minha família e assim espero que seu coronel me entenda, pois se ajudei Amadeu na mudança, foi para garantir que nada de mal acontece com ele na viagem de volta para sua cidade natal.
Na realidade, tanto o coronel como os homens que trabalhavam para ele, respeitavam Jerônimo Malta, por se tratar de um homem sério e misterioso às vezes, ali, embrenhado naquele sertão nunca dependeu de ninguém como muitos haviam dependido dele e de outros fazendeiros daquela região, desde que foi viver ali há quinze anos, nunca dependeu de ninguém para cuidar de seu roçado.
Jerônimo Malta aborrecido com as ameaças do coronel mandou um mensageiro ao chapadão levar um pequeno bilhete ao primo 
Antônio Domingos; o bilhete ele dizia: _ venha o mais breve possível, pois precisamos fazer a quebra do milho!

Nessa época longícua, dizer que precisava fazer a quebra do milho poderia significar fazer a colheita da roça de milho, ou matar alguém.
Quando Antônio Domingos chegou a sua casa por volta do meio dia, encontrou seu pai no roçado em frente à casa e contou o que se passou no sertão onde seu primo Jerônimo vivia com a família; Sr. Domingos embora sendo um homem de paz, endossou a determinação do filho, pois nesse mundo haveria de ter sempre quem defendesse os mais fracos e os dois, seguiram para casa levando os animais puxados pelo cabo do cabresto. Dona Balbina que estava saudosa do filho abraçou-o sorridente e enquanto preparava a merenda para os dois, ficou sabendo de todo o acontecido em suas andanças; Antônio perguntou pelo irmão Euzébio, vindo a saber que o irmão saiu de casa logo depois que ele seguiu de viagem para a casa do primo Jerônimo e ainda não tinha dado notícias até aquele momento.
Em diálogo com o pai, Antônio Domingos disse que pretendia levar a vida de tropeiro de hora em diante, já tinha o começo, a mula ruzia que foi presente dele e a besta e o cavalo que trouxe como prêmio de ter matado o jagunço do coronel Edmundo; agora por ali, onde ele foi criado e que muita gente já o conhecia, não era muito difícil de ganhar alguns trocados negociando animais, que nessa época era o único meio de transportes e de trabalho nesses sertões abandonados pelas classes políticas da tão tenra república nacional.
Nossos personagens viviam o meado do ano de 1915, Antônio Domingos contava os dias para fazer dezesseis anos de vida e mesmo sendo considerado um menino para muitos, já trazia na bagagem da vida um assassinato em seu currículo; fazia quatro dias que Antônio Domingos tinha chegado em casa, quando chegou o mensageiro de Jerônimo Malta com tal bilhete, ao ler a pequena carta, Antônio Domingo disse ao mensageiro que sairia em seguida para ajudar fazer a colheita do primo e conversando com seu pai ele disse: _ as coisas não deve está sendo fácil para o primo, deve ser os homens do coronel que tem ameaçado sua família, agora chegou a hora de dar apoio ao primo Jerônimo... e entrado na velha tuia de madeira, ele pegou todas as armas e seus apretechos de viagem. 
Dona Balbina sofria muito com as idas e vindas de seus filhos, pelos menos Antônio Domingo, sempre que saia de casa tinha endereço certo, bem diferente de seu primogênito que saia a esmo, sem rumo e às vezes passava anos para voltar. Nesta mesma tarde Antônio Domingos saiu de viagem para o sertão do Pedregulho onde morava seu primo Jerônimo Malta, desta vez, ele não levou os animais que eram do coronel Edmundo, somente montou sua besta ruzia que seu pai presenteara e seguiu mato adentro por aquele sertão onde a cada metro de estrada poderia ter surpresas desagradáveis.
Como na viagem de retorno para casa, Antônio Domingos fez nessa viagem para a casa do primo Jerônimo, ele estava preocupado com a família do primo que tinha ficado com a família de Amadeu sob sua tutela, mas, o que ele não sabia, que os homens do coronel tinha botado fogo na choupana do casal de amigos, com certeza, quando soubesse de tal fato acontecido, ele iria se colocar a disposição para fazer justiça em nome do casal de amigos. Desta vez Antônio Domingos não pernoitou na vila de Pedregulho como da outra vez, seguiu viagem noite adentro até chegar a casa do primo em alta madrugada.
Ao aproximar da velha casa de Jerônimo Malta, o velho cachorro que atendia por nome Sultão, começou latir dando sinal que gente estranha aproximava-se de seu território levando a família de Jerônimo Malta a acordar sobressaltada; com a velha espingarda empunhada, Jerônimo saiu escondido por de trás de algumas ramagens ao lado de seu rancho de taipa e com o claro das estrelas cintilantes ele percebeu que poderia ser o primo Antônio Domingos que chegava de viagem, aproximando um pouco mais, ele teve a certeza que se tratava do primo dando boas vindas em sinal de paz.
Passava um pouco da meia noite e os dois se encontravam em baixo da paineira em frente à casa enrolando um cigarro de palha e colocando a conversa em dia; Jerônimo contou tudo que aconteceu durante esses últimos dias e disse ao primo, que não era para fazer nada sem as ordens dele, pois queria evitar o pior, mas que precisaria dele para fazer a segurança de sua família enquanto ele e os filhos fizessem a colheita do arroz que estava por terminar; logo depois, ele junto a família iriam embora para outras terras pelos lados da Corredeira.
Antônio Domingos sabendo dos fatos ficou tremendamente irritado, disse ao primo que não deixaria barato as atrocidades desse tal coronel Edmundo, respeitaria suas ordens até que ele e sua família estivessem bem longe do alcance das armas dos homens do coronel, mais em seguida, faria uma tocaia e livraria todos daquela região dos desmandos desse homem sem piedade e sem escrúpulos. Antônio Domingos ainda tinha muita munição guardada em seu “pala”, mas pediu ao primo que fosse a cidade e comprasse mais projeteis de calibres 44 e 38, queria estar bem armado para a guerra que iria declarar com os homens do coronel; Jerônimo Malta sabia que não conseguiria tirar essa idéia da cabeça do primo, pelo menos por enquanto, então o melhor negócio era atender seu pedido e ficar preparado para o pior, pois assim, ele e sua família ficariam em segurança também.
A família de Jerônimo Malta seguia firme no que restava da colheita do arroz, nos finais de semana ele levava em seu carro de boi, a colheita da semana para ser vendido no comercio local e assim, passaram todo o período da colheita sem nenhum entrevero com os homens do coronel Edmundo. Durante esse período que Antônio Domingos ficou na casa de Jerônimo, ele ia se inteirando da rotina do coronel e seus homens; ele já sabia de todos os hábitos desses homens, o dia que eles iam a cidade em escolta ao coronel e esperariam eles na surdina para dar cabo de todos de uma única vez. O coronel Edmundo era um homem solitário, vivia sozinho em sua casa grande naquela fazenda, tendo somente uma preta velha que era a cozinheira e arrumadeira; de vez, o coronel excedia na cachaça e maltratava a pobre coitada, por vezes até chicoteando com sua chibata.
Antônio Domingos se inteirando de tudo que ouvia falar desse coronel, alimentava cada vez mais, um ódio implacável do maldito, iria acabar com todos eles em uma emboscada na estrada boiadeira que dava acesso à cidade ligando várias fazendas daquela região cafeeira. Durante todo esse tempo que Antônio Domingos ficou de segurança na casa do primo, ele aproveitava as tarde quentes para treinar sua pontaria, ele pendurava várias latinhas de azeite em cordas entrelaçadas no quintal e pedia a filha mais nova do primo para que manipulasse as cordas, puxando-as aleatoriamente, conforme ele via os pequenos alvos se mexendo ele disparava sua winchester acertando a cada um desses pequenos alvos com destreza e segurança; dona Maximina já estava acostuma com tantos disparos em sua frente, que por hora até se divertia vendo a filha correndo de um lado ao outro para puxar as cordas em movimentação aos alvos do primo, com sua gravidez bem adiantada, ela só pensava na viagem de ida para a outra terra onde o marido sempre falava em se mudar.
Jerônimo Malta havia terminado a colheita, havia também vendido todas as criações da família, conservando somente os bois de carros e os burros que levariam na viagem de mudança, os poucos pertences que tinha como mobília da casa, ele deixaria para que Antônio Domingos usasse até que acabasse o seu trabalho naquele lugar, deixou também um velho caldeirão e um pouco de mantimento para que ele comece enquanto esperava o momento certo de realizar sua empreitada e numa noite enluarada, ele saiu com a família em busca de novas aventuras no sertão da tão sonhada “Corredeira”.

  A emboscada.
Capitulo II
Com a partida do primo Jerônimo, Antônio Domingos ficou sozinho na velha choupana de taipa, ali naquele lugar deserto, ele teve tempo de planejar bem como seria a emboscada aos homens do coronel Edmundo; como ele era desconhecido na região, podia andar sem preocupação por aquelas paragens e então, ele começou investigar com muita sutilidade os passos dos homens do coronel e consequentemente os passos do coronel. Na velha estrada boiadeira que fazia acesso a fazenda do coronel Edmundo, tinha uma grande figueira que tomava grande parte da estrada e da mata que a circunvizinhava, Antônio Domingo amarrava sua besta dentro da mata e ficava na espreita durante todo o dia esperando os homens do coronel, ali, ele passou vários dias fazendo sua pesquisa sem ser notado por ninguém, sabia ele, que no momento certo ele podia abater a todos sem perder nenhum disparo de sua carabina.
Durante sua pesquisa ele pode perceber, que todas as sextas-feiras logo depois do meio dia, o coronel Edmundo fazia o percurso até a cidade, sendo escoltado por vários de seus homens, nesse dia, ele ficaria em surdina e quando eles voltassem da cidade ele abateria um por um de cima da velha figueira, sendo camuflado pelas folhas verdes e protegido pelos galhos grossos no topo da arvore. Estava aproximando às dezoito horas quando Antônio Domingos percebeu ao longo da estrada a tropa do coronel levantando poeira na marcha picada de seus cavalos, ali, apoiado e protegido pelos galhos da figueira, ele deixou ao seu lado a carabina que tinha levado quando matou Alcebíades e na cinta o Colt 38 carregado de balas, não poderia errar nenhum disparo, pois eles eram muitos e com certeza revidariam aos disparos feitos por ele.
A comitiva do coronel vinha se aproximando a uma distância de cento e cinquenta metros, quando Antônio Domingos disparou o primeiro tiro acertando em cheio a cabeça do capataz que vinha na frente da comitiva, com o estampido da munição e a queda do primeiro homem ao chão, a tropa do coronel se assustaram jogando alguns dos jagunços ao chão; de onde Antônio Domingos estava, ele tinha uma visão privilegiada do grupo de homens e numa sequência de disparos rápidos ele abateu oito dos dez homens que acompanhavam o coronel Edmundo; os outros dois homens e o coronel evadiram-se do local deixando seus cavalos para trás entrando no meio da mata fechada do outro lado da estrada.
Já se fazia noite naquele lugar e Antônio Domingos aproveitou o crepúsculo para fugir, pois certamente o coronel colocaria muito homens a procura dele; com sua besta descansada e com toda sua tralha na garupa, ele deixou aquele lugar indo de volta para a casa lá no chapadão; desta vez, ele fez outro caminho que passava bem longe da vila de Pedregulho, como nas outras vezes, ele viajaria toda a noite buscando descanso bem longe dali.
O coronel Edmundo e seus dois homens que ficaram vivos, andaram por dentro da mata até chegar a sua fazenda, onde poderia andar em segurança pela estrada que dava acesso a casa grande chegando por lá em altas horas da noite, todo esfarrapado e com vários machucados pelo corpo devido aos espinhos dos arbustos que eles amedrontados não percebiam que os feriam por todo o corpo. O coronel deu ordens expressas a todos os homens, que ficassem de vigília a noite inteira, pois temia que os bandidos que tinham os atacados pudessem ter a ousadia de invadir suas terras para liquidar com todos.
Enquanto ele era cuidado pela preta velha que lhe servia, ele conversava com seu jagunço de vanguarda nessas palavras: _ tenho certeza que fomos atacados pelos homens do coronel Fragoso, ele sempre quis ter minhas terras e o único jeito de consegui-las, é me matando e foi o que ele tentou fazer conosco; temos de ficar bem de olhos abertos, pois eles vão voltar para terminar o serviço... e ali mesmo ele deu ordem para o capataz contratar mais pistoleiros para fazer a segurança de suas propriedades.
No outro dia bem cedo, o coronel mandou um de seus homens ir à cidade buscar o delegado e os soldados do pelotão de brigada para periciar o local da tocaia, sendo um homem de muita influência política, ele não mediria esforços para descobrir se realmente foram os homens do coronel Fragoso que tinham os atocaiado naquele lugar da estrada estrategicamente. Ao chegar ao local do ataque, o delegado e seus soldados podem notar sem sombra de dúvidas, que não tinha sido um ataque coletivo, mas sim, uma única pessoa, pois no local ficaram a cápsulas das munições deflagradas de um único calibre e somente um rastro de homem esteve naquele local, percebeu também, que no local onde o animal ficou amarrado, os rastros pertenciam a um único burro ou mula, pois o diâmetro de cada pegada era bem menor do que os cavalos ou éguas deixam ao pisar no chão.
Relatando sua pericia ao coronel, o delgado disse a ele para tomar cuidado, pois poderia ser um de seus próprios homens que tinham os atacados naquela tarde; nesse momento, o coronel lembrou que mandou seus homens até a choupana de Jerônimo Malta, quando seu jagunço de confiança desapareceu e nesse mesmo momento ele mandou todos os homens que estavam disponíveis voltar à velha casinha e atear fogo em tudo que havia por lá, de preferência com a família dentro, para que não sobrasse ninguém para contar a história para outros; e assim, esses perversos homens saíram à disparada rumo à velha choupana de Jerônimo Malta.
Ao chegar ao local, os homens não viu ninguém por perto e devagar foram entrando ao interior do quintal chegando até a varanda do rancho e pode perceber que no fogão, ainda havia algumas brasas fumegando; vistoriando esse local, os homens encontraram muitas cápsulas de calibre 44 deflagradas em um canto da casa e depois de atirar fogo em tudo por ali, eles retornaram a fazenda levando a prova do crime ao seu coronel. Edmundo furioso disse a seus homens: _ eu sabia que não podia confiar naquele homem, com aquele jeito de ser muito respeitador, não passava de um criminoso covarde, que mata as escondidas como fez com minha comitiva na tarde de ontem... e chamando seu capataz deu ordens de varrer toda a região, pois ele não deveria estar longe dali.
O capataz e seus subordinados saíram à procura de mais homens para fazer a varredura; chegando à cidade eles foram de encontro a um pistoleiro de sua confiança no velho armazém e por lá, eles ficaram sabendo que Jerônimo Malta tinha ido embora há muito dias; o próprio dono do armazém disse que não acreditava ser o Jerônimo que tinha os atacado, conhecia bem aquele homem e sabia que ele era uma pessoa de bem. Mais em conversa entre eles ali dentro do armazém, o pistoleiro lembrou-se do menino que tinha encostado uma carabina 44 em seu nariz há algum tempo, poderia ser ele, pois tinha audácia de sobra para tal façanha.
A suspeita foi reforçada quando o dono do armazém disse que o tipo físico do moço audacioso era muito parecido com os traços de Jerônimo Malta; alto, de olhos azuis e pele clara.
Depois de discutidas todas as hipóteses, o capataz deu ordem de busca em toda a região do Pedregulho; os homens saíram em duplas cada uma para uma determinada região e ali foram fazendo badernagem por onde passavam endossados pela força política do coronel Edmundo, eles não tinham respeito por ninguém; invadiram casas torturando homens e mulheres procurando pelo tal moço de olhos azuis e pele clara. As buscas continuavam em plena força de desmando do coronel, seus homens e pistoleiros contratados percorriam todas as propriedades rurais e nelas deixavam suas marcas de brutalidades e esse povo sofrido não tinham a quem socorrer, somente Deus poderia velar por eles naquele sertão sem lei e sem escrúpulos.
Numa dessas buscas, os homens do coronel Edmundo encontrou um jovem de barbas ruivas e roupas destroçadas, cercando-o com seus cavalos e fazendo muitas perguntas, o jovem apavorado caiu ao chão sendo chicoteado pelos jagunços sanguinários; levando-o arrastado pelo laço preso na chincha dos cavalos, o jovem moço por muitas vezes caiu ao chão vencido pelo cansaço até chegar ao conhecimento do coronel Edmundo.
Depois de muitos ultrajes, eles prenderam o rapaz no tronco de um velho galpão para que no outro dia pudesse ser interpelado pelo delegado da cidade que vivia sob comando desses coronéis cafeeiro. Depois de ser torturado várias vezes pelo delegado e seus homens, o jovem rapaz confessou que era primo de Jerônimo Malta, mas disse que nunca havia matado ninguém e o próprio coronel pode perceber que aquele homem não era o responsável pelo o ataque que sofreu, mas continuou com as torturas tentando arrancar mais alguma coisa que pudesse levar ao paradeiro do tal moço audacioso que fez um pistoleiro renomado calar a boca no cano de uma carabina.
O jovem preso pelos homens do coronel disse sob tortura, ter um irmão mais novo que se parecia muito com ele e que esteve na casa do primo por algumas vezes; o jovem preso se tarava de Eusébio, o filho primogênito de Balbina e Domingos Quadro. Eusébio não sabia das matanças de seu irmão mais novo, desde que cresceu, ele não parava em casa, sempre andando a esmo pelo mundo, ele pouco sabia de sua família, sofrendo de problemas mentais, ele por muitas vezes se perdia nessas viagens, indo parar em lugares completamente estranhos para a família Quadro. O coronel resolveu aprisionar o rapaz sob trabalho em sua fazenda dando ordens aos seus homens de não perdê-lo de vista em nenhum momento; em uma noite de muita chuva, Eusébio aproveitou a distração dos capangas e saiu na escuridão ganhando aquelas lavouras de café até sair em uma mata fechada dando sequência na viagem de retorno para casa.
Depois de vários dias de viagem em meio às matas, Eusébio chegou a sua casa no velho chapadão, encontrou sua mãe muito doente com o mal de maleita e seu pai sempre atarefado no roçado, ali, sentado num tronco ao chão da pequena roça do pai, ele relatou tudo que passou e todas as suspeitas que sobre caiam em cima de seu irmão mais novo. Sr. Domingos sempre preocupado com seus filhos dava sinal de cansaço, com a esposa doente e os filhos sempre metidos em problemas, ele por muitas vezes chorava em silêncio nas suas labutas diárias.
Antônio Domingos depois da tocaia com os homens do coronel, voltou para casa e começou a tropear com seus animais, sempre em viagens pelo sertão, ele pouco parava em casa, passando muito dias alongado em suas andanças; Eusébio ficou em casa junto dos pais, ele estava muito fraco devido às torturas recebidas e nesse meio de tempo, dona Balbina veio a falecer pelo mal da maleita.
Já fazia mais de quinze dias que dona Balbina havia morrido quando Antônio Domingos chegou de sua viagem pelo sertão, trazia em sua goiaca uma grande soma em dinheiro ganhado pelos negócios realizados de tropeiro, como sempre fazia em suas chegadas, ele foi entrando no rancho e chamando pela mãe encontrando Eusébio acamado se recuperando de todos os traumas sofridos; se inteirando de todo acontecido, Antônio Domingos ficou furioso, disse ao irmão que vingaria por ele tudo que ele passou nas mãos daqueles homens, ele sabia muito bem como eles trabalhavam e quais eram os métodos que eles usavam.
Esperando seu pai chegar do roçado, Antônio Domingos relatou a vingança que iria fazer; seu pai ainda tentou tirá-lo de idéia não tendo nenhum êxito. No outro dia bem cedo, Antônio Domingos saiu de viagem rumo à vila do Capivari a fim de encontrar dois de seus tios, que assim como ele, também não gostavam de ver ninguém sofrer opressões, de lá, eles seguiriam para a cidade de Pedregulho para enfrentar o coronel e seus homens. Depois de acertado com os tios, Pedro e José Valério, eles passaram no armazém de comercio e fizeram as compras das munições necessárias para a missão; ali, cada um comprou as devidas munições competentes para cada arma e desse lugar, eles saíram em diligência rumo às terras do coronel; Antônio Domingos apesar de bem mais novo que os tios, era o comandante da operação, ele conhecia tudo por ali e todas as trilhas para a fuga que não seria nada fácil de hora em diante pelo fato do delegado e seus homens ter a discrição exata dele.
Compraram munição com fartura, pois, não saberia ao certo qual era a batalha que tinha pela frente, mas ele era um homem jurado de morte pelo coronel Edmundo e não daria chances para ser morto nas mãos de seus homens, pois o coronel era um homem covarde que não sujava suas mãos para esses serviços, mas, ordenava sempre com muita crueldade a execução desses serviços e na maioria das vezes, ele acompanhava de perto para ter certeza que o serviço sairia do jeito que ele ordenara; além de tudo, ele estaria vingando as atrocidades que eles tinham feito com seu irmão Euzébio, iria fazer aqueles homens engolir chumbo sem nenhuma piedade.
Os tios de Antônio Domingos, José e Pedro Valério, eram homens que não tinham os mesmo procedimentos do sobrinho, eles matavam por dinheiro, eram homens pistoleiros, que nessa época era muito comum, não tinha vínculo com nenhum fazendeiro, mas de miúdo fazia algum servicinho para eles; durante a viagem eles seguiam calados concentrados na missão que tinha pela frente, eles conheciam bem o sobrinho e sabia a determinação dele no gatilho de uma carabina, em todos os treinamentos que fizeram juntos, Antônio Domingos sempre fez questão de dizer que treinasse os pontos vitais do inimigo; cabeça e peito, com o calibre das armas que tinham em mãos, não tinham nenhuma chance de sobreviverem ao impacto.
Eles andavam por meio as matas em trilhas escuras sempre em fila indiana, indo para onde havia a casinha de seu primo Jerônimo, chegaram à noite nesse lugar e Antônio Domingos ficou assustado com o que viu; se o primo não tivesse ido embora, pensava ele, teria morrido nas mãos dos homens do coronel; nesse momento seu ódio cresceu ainda mais em seu coração e para deixar que o dia amanhecesse eles passaram a noite deitado nos baixeiros de suas arreatas. No outro dia de madrugadinha eles saíram rumo à fazenda do coronel; de cima de uma arvore eles iriam observar toda a movimentação dos homens junto à sede da fazenda e então, eles traçariam a melhor forma de fazer o ataque.
A casa grande do coronel era toda cercada por enormes mangueiras bem folhadas e de todas as formas que estudaram o ataque, a melhor forma que encontraram foi de se esconderem em cima das mangueiras e de cima delas, efetuarem os disparos acentuadamente e certeiros, pois as folhas os camuflariam e eles tinham a proteção dos galhos grossos dessas arvores. Depois de combinados e ensaiados todos os passos, de terem a certeza de quantos homens o coronel dispunha em seu comando, eles seguiram de pé entre a mata esperando a noite cair para que eles pudessem entrar na fazenda sem serem visto, e ali, eles passariam a noite escondidos em cima daquelas mangueiras, em pontos estratégicos e no amanhecer do dia quando o coronel fosse dar as ordens aos seus homens, eles atacariam sem piedade atirando com precisão.
Eles se dividiram em três arvores na frente da casa grande, Antônio Domingos ficaria com os homens que estivessem ao centro e os tios com os que estivessem nas laterais, eles pegariam primeiro os jagunços e depois Antônio Domingos fazia questão absoluta de pegar o coronel pessoalmente para vingar as torturas que ele ordenou ao seu irmão Euzébio. Tudo acertado entre os justiceiros, Antônio Domingos dava o primeiro disparo sendo seguido pelos tios sempre com muita rapidez para não dar chance de defesa aos homens do coronel e assim, às seis horas da manhã ouviram-se o primeiro disparo feito pelo menino justiceiro sendo sequenciados pelos outros dois atiradores; a cada disparo realizado era um homem que caía por terra, eles atiravam pelas costas sempre acertando a nuca de seus adversários que caiam ao chão sem chances de vida, eles portavam duas carabinas cada um e de grosso calibre, ao total eram noventa disparos que tinham para dar.
A guarda do coronel era feita com vinte e cinco homens nesse dia, tinha homens de toda a região a serviço desse coronel, mas, o que eles não contavam, era a audácia do ainda menino Antônio Domingos em invadir a propriedade do coronel como estava sendo invadida nesse momento; dos vinte e cinco homens do coronel, vinte ficaram caídos no lugar e cinco deles evadiram-se do local entrando em disparada para dentro da casa grande. Antônio Domingos desceu da arvore onde estava e deu ordem aos tios que descem cobertura a ele, pois ele iria invadir a casa e dar cabo do resto, e assim, ele seguiu correndo para frente da casa enquanto seus tios disparam vários tiros nas janelas e portas daquela fortaleza. Quando o menino certificou que todos os caídos estavam mortos, ele deu ordens aos tios para que viessem para junto a ele e entrassem os três juntos para que fossem ainda menores as chances de defesas do coronel e seus homens que estavam acuados.
Entrando pela frente, Antônio Domingos, José e Pedro Valério seguiram pelos fundos a fim de não deixar ninguém escapar com vidas e assim, a cada homem que saia pelos fundos eles abatiam sem piedade, ao terminar com Antônio Domingos dominando o coronel e outro individuo que escondia em seu gabinete da casa grande atrás de uma escrivania.
Na mira da carabina do menino, o coronel chorava de medo de morrer, tentou suborná-lo com muito ouro e dinheiro, mas Antônio Domingos era implacável na sua vingança e ali confessou a morte de Alcebíades e o ataque na estrada junto aos seus homens; disse também, que mataria ele por ter feito prisioneiro seu irmão doente e por todas as torturas que recebeu de seus homens e nesse momento ele disparou contra a cabeça do coronel e a do jagunço que estava se borrando todo de medo e saindo dali levando uma das orelhas do coronel como prêmio da caçada; eles encontram com Pedro que vinha entrando a casa grande trazendo aprisionada a preta velha que servia o coronel. _ O que faço com essa velha? Perguntou Pedro ao sobrinho... _ solte a mulher tio Pedro, ela não nos fez nada e vamos embora desse lugar!
Trazendo a mulher junto a eles até a porta de entrada da casa grande, eles perceberam os colonos chegando a casa para ver o acontecido e nesse momento, antes que os tios atirassem nos pobres homens, Antônio Domingos ordenou que eles abaixassem as armas e deu ordem aos peões que estavam acovardados de medo, para que dissessem as autoridades que ali viessem que o “justiceiro do sertão” esteve ali nessa madrugada; e dali, eles tomaram os cavalos dos homens do coronel que se encontravam arreados e saíram em disparada rumo à cidade de Pedregulho, tomando atalho logo mais a frente em meio à mata em rumo à ruína do sítio onde Jerônimo morava.
Ao chegarem ao velho sítio, eles soltaram os cavalos que lhes trouxeram até ali e tomaram suas bestas que estavam descansadas, arreando-as o mais rápido possível para a fuga rumo à vila do Capivari, que teriam de fazer por entre as trilhas escuras em meio ao mato fechado; viajando todo aquele dia e noite para tomarem fôlego bem longe do alcance do delegado amigo do coronel.
Depois da fuga dos três justiceiros, um dos peões da fazenda seguiu até a cidade para chamar as autoridades a fazer a ocorrência do fato, ali chegando, o delegado perguntou a um dos homens que estava velando pelos corpos se eles conheciam as pessoas que tinham atacado os homens do coronel e nesse momento, um deles respondeu que eles tinham deixado um recado para as autoridades, que dissessem ao delegado, que aqui estiveram os “justiceiros do sertão”. O delegado estava boquiaberto com a audácia desses homens, com certeza seria o mesmo homem que tinha atacado-os na estrada alguns meses atrás, mas dessa vez, ele veio com reforços para fazer o serviço direito.
O delegado colheu as cápsulas deflagradas das carabinas e constatando o calibre ele não teve nenhuma dúvida, se tratava da mesma pessoa do ataque anterior; investigando a preta velha, ela disse que quem dava as ordens era um moço de olho claro, pele branca e barbas ralas e que todos portavam dois rifles e mais um revolver cada um no coldre da goiaca. Quando todos os corpos já estavam periciados (nessa época a pericia era feita somente a olho nu), o delegado deu ordem aos colonos para enterrarem todos os corpos no cemitério da fazenda, inclusive o corpo do coronel que se encontrava com a cabeça dilacerada pelo impacto do balaço 44 de Antônio Domingos.
Saindo dali, o delegado pediu reforço ao pelotão de brigada da policia militar que no qual, mandou vários homens a cidade de Pedregulho para repor a ordem e em seu gabinete, ele convocou na cidade de Franca, alguns homens da captura volante para sair no encalço dos homens assassinos do coronel Edmundo; pediu também a intervenção federal nas propriedades do coronel, já que ele chegara naquela cidade ha muito anos como forasteiro e ninguém sabia o paradeiro de seus familiares.
A brigada militar chegou ao outro dia bem cedo, vindo no primeiro trem da mogiana, eram muito os homens que compunham a corporação militar e junto deles chegou também os homens captura volante, que sairiam no encalço dos forasteiros assassinos.
Nesta mesma manhã, Antônio Domingos e seus tios já se encontram na vila do Capivari desarreando a tropa indo descansar em um ranchinho perto daquela vila; passaram no armazém de comércio para reporem as munições gastas, pois dali para frente eles seriam procurados por todos os cantos daquele sertão e ao receber visitas de jagunços ou da captura volante, eles não tinham outra opção a não ser, recebê-los à bala em defesa própria.
Os homens da volante sabiam que não seria fácil encontrar os pistoleiros, mas eles estrategicamente sairiam solitários por aquele sertão, disfarçados de peões de chatão; sairiam à procura de empregos nas fazendas cafeeiras pensando em encontrá-los nessas paragens, eles não imaginavam que Antônio Domingos viajava muitas léguas de onde morava para tocaiar os homens do coronel Edmundo. As buscas continuavam acirradamente por todo o sertão circundos a vila do Pedregulho, chegaram até atravessar o rio grande entrando em minas gerais sem a permissão de seus comandantes, mas nenhum êxito tiveram em encontrar os fujões da lei.
Já tinham corrido quase um ano do fatídico dia da emboscada, Antônio Domingos e seus tios continuaram juntos no negócio de compra e vendas de cavalos e burros por aquele sertão, já havia esquecidos o tal dia da matança e por ali, eles circulavam sem nenhuma restrição; as pessoas que conhecia Antônio Domingos, sabiam que ele não brincava na hora de matar, mas também sabiam que ele não era de procurar encrencas com ninguém, somente não enjeitava quando encontrava em seu caminho, ele era o típico homem que não andava desarmados em espécie alguma, estava sempre portando duas carabinas e seu revolver Colt, herança do jagunço Alcebíades que ele matou em defesa a honra de Amadeu e sua esposa Rosa; nessa época, nas vilas de pouca população, não havia policiamento, era muito comum quando havia alguma confusão, os fazendeiros da região mandarem seus homens de confiança fazerem as leis nestes lugares, leis essas, que sempre eram impostas por eles mesmo, que participando na política contavam sempre com cartas brancas de juízes e delegados das comarcas que muitas vezes ficavam distantes muitas léguas dessas vilas.
Estávamos no ano de 1917, Antônio Domingos tinha acabado de completar dezessete anos de idade; desde que voltou de Pedregulho, ele havia passado poucas vezes em casa, sua mãe, dona Balbina já havia falecido de maleita há mais de um ano; seu pai também estava adoentado quando ele a viu pela última vez, seu irmão Euzébio havia se casado com uma moça filha de um visinho e tinha partido em busca da casa do primo Jerônimo lá pelas bandas da Corredeira. Em uma das viagens de tropeio, Antônio Domingos passou no ranchinho de seu pai encontrando-o muito doente, ele deixou sua tropa descansando no mangueiro e foi em busca de um curandeiro que sua mãe conhecia nas cercanias de Igarapava a fim de encontrar um remédio para curar o mal da malaria que seu pai havia se contaminado; chegando ao casebre do tal curador, ele foi saudado pelo nome levando-o ao espanto, pois nestas terras ele somente havia passado em viagem e nunca tinha dito seu nome a ninguém; mesmo assim, ele contou o caso a velho e tendo uma resposta que o deixou mais surpreso ainda.
O velho curandeiro disse a Antônio Domingos, que não adiantaria ir com ele, pois seu pai já tinha morrido logo depois que ele saiu em sua busca e que ele voltasse o mais rápido possível para fazer o funeral de progenitor; Antônio Domingos assustado com essa conversa retrucou ao velho: _ como pode me dizer isso se o senhor nem me conhece e nem sabe quem somos? E o velho levando a mão ao queijo coçando a barba branca respondeu: _ sua mãe Balbina está aqui ao meu lado e me disse tudo, inclusive que você matou numa emboscada vários homens numa cidade distante daqui. Nesse momento pela primeira vez na vida, Antônio Domingos sentiu-se com medo, pois ninguém sabia dessa emboscada a não ser seus tios, mas esses, não contaria a ninguém e além do mais, ele esteve com eles o tempo todo nas viagens de tropeio e onde ele estava era uma distância considerada do rancho de seu pai.
Perturbado com a conversa do velho, Antônio Domingos ameaçou-o com sua carabina dizendo que ele estava falando demais, mas o homem calmamente respondeu: _ não se preocupe filho, não conto nada a ninguém às coisas que me são reveladas do além, sei disso por que sua mãe me disse quando você aqui chegou e ela me pede nesse momento, que eu lhe dê proteção em suas jornadas... e mostrando uma pequena medalha de São Jorge ele continuou: _ está vendo essa pequena medalha? Ela tem de ser implantada em cima de seu coração, para que você possa ficar com o corpo fechado e nenhuma bala possa lhe atingir ameaçando sua vida. Intrigado com a conversa do velho, Antônio Domingos disse mais uma vez que não acreditava nele, sendo mais uma vez surpreendido pelo curandeiro: _ sei que é difícil de acreditar no que lhe digo filho, mas sua mãe me pede para que eu lhe diga uma coisa que fará você pensar melhor no assunto, ela manda lhe dizer o seguinte: _ quando seu irmão Euzébio saiu de casa pela primeira vez, você chorou muito de saudade e que por várias vezes você perguntou se era muito longe o lugar que ele havia ido, pois se não fosse, você o buscaria em seu cavalo de pau! Nesse momento Antônio Domingos sentiu-se baqueado, pois ele lembrava muito bem dessa conversa na sua meninice e que jamais ninguém soube desse fato; calado e triste com saudade da mãe, ele ouviu mais umas palavras do velho curandeiro: _ sua mãe pede para que me deixe implantar a medalha do santo em seu peito e ficará livre de ser morto por armas de fogo.
Antônio Domingos estava meio incrédulo com a veracidade da conversa do velho, mas pensava nas palavras que havia dito referente a ele a mando de sua mãe morta e com saudade da mãezinha querida, ele permitiu ao curador fazer o tal implante em seu peito. Com a própria faca de Antônio Domingos, o velho curador abriu uma pequena cavidade sobre o coração dele e colocou dentro a pequena medalha, com uma velha agulha ele costurou o pequeno corte untando com azeite e sumo de alguma ervas que cultivava no quintal do rancho; dizendo palavras em dialetos desconhecido por Antônio Domingos, o velho curador fez alguns rituais imantando seu corpo com ramos de algumas plantas exóticas que ele colheu ali mesmo no terreiro do rancho.
Terminado os rituais, o velho curador disse ao Antônio Domingos que ele estava a partir desse momento com o corpo fechado a armas de fogo, mas não tinha nenhuma segurança contra armas brancas ou golpes que poderia atingir pontos vitais de seu corpo e liberando o forasteiro ele abençoou-o dizendo para que fosse enterrar seu pai que estava morto no seu ranchinho.
Antônio Domingos foi certificar de que se realmente seu pai havia mesmo morrido, pois teve o impacto da verdade logo ao chegar às dependências do ranchinho, quando ele pode sentir de longe o cheiro forte do corpo em decomposição e mesmo sem chegar perto do corpo, ele abriu uma cova ao lado da sepultura de sua mãe para depois ir buscar o pai morto em sua caminha rústica, enrolando-o em uma mortalha e enterrando logo em seguida. Ele estava triste em perder seu pai, pois tinha uma afinidade muito grande com o pai, mesmo tendo sua vida atribulada pelas mortes cometidas, mas, desse momento para frente ele seguiria sua vida tropeando por todo aquele sertão, não tendo destino certo e nem mesmo residência fixa; com seu negócio de tropeiro, ele tinha algum dinheiro guardado nas mãos do dono do armazém de comercio na vila do Capivari; aquele homem conhecendo melhor Antônio Domingos viu que ele não era nenhum bandoleiro, mas sim, um justiceiro que defendia os mais fracos das mãos de pessoas de coração ruim. Ali mesmo em seu armazém, ele havia confrontado com homens de fazendeiro em defesas de pobres pessoas que iam comprar alguma coisa, sendo alvo de chacotas desses jagunços, que bêbados e endoçados pelos patrões, abusavam de pessoas humildes e de mulheres indefesas.
Antônio Domingos e seus tios estavam sempre em viagens por todo aquele sertão comprando e vendendo burros, ele como chefe da comitiva, passou a ser uma pessoa muito conhecida entre os fazendeiros da região, ganhando o respeito de todos; seus tios, Pedro e José Valério, de bandoleiros na vila do Capivari, passaram a ser tropeiros junto do sobrinho que eles respeitavam e até temiam em alguns momentos, pois sabiam eles, que o sobrinho além de muito rápido no gatilho da carabina, não pensava duas vezes em matar uma pessoa e principalmente na frieza que executava esses infelizes.
Já fazia alguns meses que Antônio Domingos e seus tios haviam saído em viagem, quando chegou à vila do Capivari, dois homens estranhos perguntado por ele, esses homens vestiam-se simplesmente, mas, mostravam traços de pessoas da cidade grande, levando Raimundo, (o dono do armazém) a desconfiar que fossem homens da captura; nesse mesmo dia, Raimundo despachou seu ajudante, “um pretinho que trabalhava nos fundos do armazém empacotando mercadorias” ir ao encontro de Antônio Domingos e seus tios, que ele sabia estar pelos lados do Bacuri negociando tropas; em disparada pelos fundos do armazém, o pretinho saiu montado em um cavalo de propriedade de Raimundo levando um pequeno bilhete ao amigo justiceiro.
Depois de alguns dias de viagem, o pretinho encontrou a comitiva de Antônio Domingos entregando a ele o bilhete do amigo, alertando os tios do perigo que se aproximava, eles resolveram voltar a vila e ir de encontro aos homens que procuravam por eles. Durante esses dias de viagem do pretinho, até o Bacuri e do retorno até a vila do Capivari, os homens que ficaram por ali alguns dias, desapareceram deixando muitas dúvidas no ar; onde eles estariam? O que vieram fazer? Quem seriam eles?... mas por cautela, Antônio Domingos e seus tios ficaram preparados para o pior; eles, contando com ajuda de algumas pessoas de confiança, foram para o ranchinho onde viviam um pouco fora da vila com muitas munições, preparados para o combate se necessário.
Durante a estada dos homens forasteiros na vila, investigando uma velha senhora, os homens descobriram a identidade de Antônio Domingos e seus tios e dali, eles saíram em retirada para a cidade de Pedregulho, a fim de buscar a brigada da polícia militar para a captura dos indivíduos; depois de vencer as partes burocráticas da lei, eles formaram um pequeno pelotão com policiais da brigada e partiram em direção a vila do Capivari em busca aos matadores do coronel Edmundo, marcharam durantes dias por aquelas matas até chegarem às proximidades da vila do Capivari, acampando nas margens do rio do Carmo. Um pescador que estava do outro lado do rio vendo toda aquela movimentação policial, se assustou e foi embora correndo levar a notícia aos moradores da vila chegando em primeira mão, ao ouvidos de Raimundo que mandou imediatamente seu pretinho levar a notícia ao amigo Antônio Domingos e aos irmãos Valério.
Ao chegar à velha cabana, o pretinho de Raimundo assoviou dando sinal de chegada, pois seria muito perigoso chegar sem alarde na toca dos homens mais perigosos da região; ao relatar a mensagem de Raimundo, Antônio Domingos e seus tios ficaram apreensivos pensando no que fazer para suas defesas; tinham bastante munição de calibre grosso e mais as armas curtas que eles exibiam sem nenhum medo de serem molestados, pois naquele sertão abandoado pela justiça, somente as armas nas mãos de pessoas destemidas seriam capazes de colocar respeito em barbáries que certos fazendeiros e coronéis faziam com pessoas mais fracas e humildes.
Ali mesmo nas dependências do rancho, Antônio Domingos deu os comandos necessários para o novo confronto, da mesma forma que eles atacaram a fortaleza do coronel Edmundo, eles iriam se defender dos homens da volante que vinham em diligência para levá-los vivos ou mortos para serem entregues ao delegado, subordinado aos coronéis daquela cidade de Pedregulho; Antônio Domingos e seus tios tinham um lema na vida, somente mortos eles seriam entregues nas mãos da polícia e nesse momento, eles lutariam até a morte se fossem necessários.
Antônio Domingos nem se lembrou do tal fechamento de corpo feito pelo bruxo e curador da cidade de Igarapava e naquele sertão bravio, eles esconderam os animais no mato e subiram em arvores frondosas na mata perto do rancho, da mesma forma que aconteceu na fazenda do coronel Edmundo, eles iriam fazer ali; Antônio Domingos daria o primeiro disparo sendo seguido pelos dois atiradores, que assim como ele, eram velozes no gatilho e de ótima pontaria.
Tudo indicava que os policiais atacariam a noite, tentando pega-los em surdina e poderia ser que alguém da volante estivesse vigiando-os naquele momento.
Pedro Valério deixou no interior do rancho, um pequeno lampião aceso, assim quando os homens chegassem, pensariam que eles estivessem descansando e atacariam primeiro o interior da casinha. Do outro lado do rio do Carmo, o comandante da operação deu às últimas instruções aos policiais, alertando-os pelo perigo que tinham pela frente, disse aos seus comandados que os homens que eles estariam prestes a atacar, eram homens de periculosidades extremas e as ordens que ele tinha, eram de levá-los vivos ou mortos ao tribunal do juiz da comarca de Franca; de posse de um pequeno mapa, o comandante da operação mostrou cada detalhe do ataque dizendo aos policiais que atirassem para matar, pois assim, seria menos perigoso para todos.
A noite caia naquele sertão e os policiais atravessavam o rio do Carmo montados em seus cavalos que os levariam até bem próximos da vila do Capivari, depois, eles seguiriam a pé por entre a mata a fim de pega-los de surpresa. Conforme planejado, esse pelotão se aproximou da casinha dos justiceiros; percebendo a pequena chama do lampião acesa, o comandante julgou pega-los dormindo em suas redes ou tarimbas que eram usadas pelas pessoas pobres da época. Cercaram o ranchinho de Antônio Domingos e seus tios, quando eles se encontravam em posição de ataque, Antônio Domingos disparou o primeiro tiro em direção ao comandante da operação acertando de raspão na cabeça, pela primeira vez na vida, Antônio Domingos perdeu um disparo em vão. Quando José e Pedro Valério ouviram o primeiro disparo vendo cair o primeiro homem da volante, eles disparam uma sequência de tiros em direção aos policiais que foram caindo por terra sem vidas, os demais policiais saíram em disparadas rumos aos animais que estavam por perto, sendo alguns deles alvejados pelos balaços de calibre 44 das carabinas dos justiceiros do sertão.
Antônio Domingos e seus tios saíram em direção da casinha e como fez na fazenda do coronel Edmundo, ele também arrancou com sua faca umas das orelhas do comandante da operação,  que desfalecido ficara pelo impacto de uma 44, sendo sangrado pela peixeira de Antônio Domingos lhe tirando o que restava de vida; ajuntando seus poucos pertences, Antônio Domingos deu ordens aos tios para atirarem fogo à velha palhoça de barro, definitivamente eles agora eram foras da lei e teriam toda a polícia do estado maior a suas capturas; saindo em direção à vila do Capivari, eles passaram no velho armazém de comercio para suprir suas munições ao máximo, pois agora, eles teriam sempre a polícia em seus rastros e acordando o velho amigo Raimundo, eles compraram todo o estoque de munição de calibre de suas armas e desta vez saíram sem deixar endereço de seus destinos.


A fuga
Capitulo III
Saindo a toda disparada pela estrada com destino a cidade de Ituverava, de longe os moradores da vila podiam ouvir os barulhos dos cascos dos cavalos dos justiceiros, depois de uma longa caminhada feita a galope, eles pararam na entrada de Ituverava, as margens do mesmo rio do Carmo, ali, eles deixaram seus cavalos descansarem um pouco e traçaram suas fugas rumo a tal Corredeira, onde morava o primo Jerônimo, que ha mais de um ano que eles não os viam. Depois de tomarem a decisão de irem à busca do primo, eles saíram em viagem cortando volta do centro da cidade onde poderia encontrar algum policial de plantão podendo colocar em perigo suas fugas.
Andaram aquela noite inteira rumo a Capela do Salto, uma pequena vila de colonos há umas seis léguas de onde eles estavam, ali, nas proximidades dessa vila, eles tomariam conhecimento de caminhos que os levariam até a pequena Corredeira, que ficava bem ao longe depois das margens rio Sapucaí. Adentrando um pequeno armazém nessa vila, Antônio Domingos e seus tios deixaram todos que ali se encontravam amedrontados, empunhando duas carabinas cada um, eles pediram um pão recheados de queijos, pois estavam famintos; Antônio Domingos notando o espanto das pessoas que ali se encontravam, disse a todos, que eles eram de paz, estavam em viagem à procura de um primo que tinha se mudado para aquela região há quase dois anos e demorariam muito pouco tempo neste armazém.
Depois de tomarem algumas cachaças e comerem seus pães com queijos eles foram embora a passos lentos por aquela estrada boiadeira indo tomar fôlego em outra vila do outro lado do rio Sapucaí por nome Olhos D’água, (onde hoje é a cidade de Ipuã) chegando neste local no cair da tarde. Olhos D’água nessa época era apenas uma pequena corruptela com poucas casas e alguns armazéns de pequeno porte, tinha na entrada da vila um estábulo, onde os viajantes pernoitavam deixando seus cavalos pastando logo ao lado em pastagem verdejantes; nesse mesmo local, eles entraram em conversa com o tratador de cavalos e contaram que estavam à procura do primo Jerônimo Malta, que tinha vindo para esses lados há quase dois anos.
O tratador de cavalos despertando sinceridade dos homens recém-chegados, disse que conhecia um homem chamado Jerônimo, que havia chegado por ali nessa data mencionada por eles, mas ali naquele sertão, ele era conhecido por Jerônimo Novato por se tratar da única pessoa que veio habitar esse lugar nos últimos dez anos. Os três forasteiros sorriram satisfeitos com a notícia, pois estavam cansados da longa jornada e nesse momento era o que mais queriam encontrar, um lugar onde estivessem em segurança e onde poderiam confiar nas pessoas que estivessem ao seu lado.
Devido ao cansaço da viagem, Antônio Domingos e seus tios pegaram em sono pesado deitados em suas redes de descanso, eles tinham conversado muito com o tratador de cavalos e notaram que era um homem de confiança e ali, eles poderiam dormir sossegados até o romper da aurora.
Ao sinal dos primeiros raios de sol que surgiam no horizonte, os justiceiros acordaram para seguirem em frente nas suas jornadas, arriaram seus cavalos e bem antes que os outros viajantes acordassem, eles já estavam cavalgando por aquelas matas fechadas que circunvizinhavam a pequena Olhos D’água; o tal Jerônimo Novato que o cocheiro mencionou a eles, moravam em um sítio distantes quase duas léguas de onde eles pernoitaram, eles passariam nesse lugar em primeira mão, se a tal pessoa não fossem quem eles esperavam que fosse, de lá eles seguiam em frente até a tal Corredeira que o primo Jerônimo tanto falava em dias do passado.
Ao longe em uma colina verdejante, eles perceberam a fumaça de uma pequena casinha de taipa, ao redor eles puderam perceber um pequeno mangueiro com algumas criações, sorridente Antônio Domingos disse aos tios, que aquela cena era bem característica do primo Jerônimo que sempre gostou de muita fartura em sua casa; ao se aproximar da morada avistada, eles depararam com uma roça de fumo em meio aos tocos do mato que tinha sido tombado há pouco tempo e lá no fundo rente à floresta intacta, eles perceberam um senhor trabalhando do roçado com a camisa molhada de suor devido ao calor que fazia nesse dia. De onde eles estavam Antônio Domingos chamou pelo senhor em alta voz e como era de costume na época, eles disseram que vinham em paz e pediu permissão para se aproximar; do outro lado do roçado, o senhor ouvindo as palavras do forasteiro deu permissão para que eles pudessem chegar onde ele estava, mas como também de costume, aquele senhor ficou entre uma grossa arvore, sendo protegido em caso de ataque covarde dos homens que se aproximavam lentamente caminhado entre a plantação de fumo.
Quando os três homens chegaram bem mais perto, eles foram reconhecidos sendo interpelados com essas palavras: _ ora, ora... veja só quem está chegando em minha casa depois de tanto tempo! E deixando a ferramenta jogada ao chão ele correu para cumprimentá-los.
_ Primo Jerônimo... há quanto tempo não nos vemos! E ali, eles pegaram em conversa descontraídas por alguns minutos. Mas Jerônimo Malta sabia que o primo Antônio Domingos e seus dois tios não estavam ali somente para lhe fazer uma visita, eles deveriam ter aprontado alguma por lá e estariam se escondendo nesse lugar e convidando os três para irem tomar um cafezinho e conhecer o mais novo da família que nasceu logo que ele chegou naquele lugar, o pequeno José, que era o filho caçula do casal Malta.
Caminhando rumo à casinha de Jerônimo Malta, Antônio Domingos contou a ele, que o coronel Edmundo ordenou seus homens atearem fogo na casa onde ele viveu em Pedregulho com sua família; nesse momento, Jerônimo Malta percebeu o quanto estava correndo perigo de vida com sua família naquele lugar. Desarrearam a tropa e seguiram para casa para cumprimentar a esposa do primo; dona Maximina já estava preparando o almoço quando chegaram os forasteiros, mas como era também de costume, ela já reforçou os preparativos, pois sabia que seu esposo não deixava ninguém sair de sua casa sem fazer sua respectiva refeição junto com eles sentados em volta a uma mesinha de madeiras lavradas a golpe de machado.
Depois do almoço, Antônio Domingos narrou ao primo todos os acontecimentos dos últimos dois anos; contou com detalhe o ataque que ele fez sozinho ao coronel Edmundo e seus homens na estrada de acesso a sua fazenda, falou sobre a fuga até a vila do Capivari, falou das mortes da mãe e do pai naquele sertão e do ataque que sofreu em dias atrás com a brigada militar indo de encontro a eles na vila do Capivari.
Jerônimo Malta sempre foi um homem a favor da justiça, fosse ela de onde viesse, sabia que o primo tinha matado sua primeira vítima para defender a honra de seu amigo Amadeu e sua esposa Rosa, também era grato a ele por ter feito sua segurança enquanto ele terminava a colheita do arroz lá naquela cidade quando pressentia ameaças do tal coronel Edmundo e agora era a vez de ele contribuir com o primo e seus tios, que estavam sendo procurados pela polícia acusados de vários crimes, sabia também, que se o primo caísse nas mãos da polícia, não sairia vivo, pois quem matava homens notáveis como eram os coronéis e oficiais da brigada nessa época, eram arrastados pelo chão até morrer na mais pura judiação.
Em conversa com os três, Jerônimo Malta disse a eles que poderiam ficar ali o quanto quisessem, mas, teriam de ajudá-lo no roçado e que suas armas ficariam guardadas até que eles fossem viajar novamente ou sentissem ameaçados, neste lugar, disse Jerônimo aos amigos, reina a paz, desde que aqui cheguei nunca presenciei cenas de violências e quando vou à cidade, sou bem tratado por todos; Antônio Domingos disse ao primo que estaria junto dele na lida, mas eles tomariam a tropeadas em breve, aproveitariam a nova morada e começariam comprar e vender mulas e burros aos sitiantes da região como estava fazendo quando foram atacados no rancho da vila Capivari.
Os dias estavam passando rápidos e Antônio Domingos desejava sair em tropeadas pela região, eles contavam apenas com seus cavalos e algum dinheiro que trouxe das tropeadas anteriores, com o dinheiro que restava em suas goiacas dava apenas para comprar dois animais, como estava em períodos de entre safra de preparo da roça, Jerônimo Novato emprestou sua tropa para que Antônio Domingos e seus tios restabelecessem suas finanças, com trato dos três reporem sua tropa no ano seguinte logo no começo do novo preparo da roça. Antônio Domingo e seus tios saíram em viagem pela região levando seus burros de selas e mais quatro mulas de propriedade do primo Jerônimo e mais duas que adquiriram na vila de Olhos D’água e ali, eles seguiram pelo sertão da Corredeira levando como armas de defesas somente seus “Colt” embainhados ao coldre de suas goiacas, eles deixaram sob tutela de Jerônimo Novato, as seis carabinas winchester de calibre 44 e mais três sacolas de munição que cada um trazia em seus “pallas” levando Jerônimo Malta dizer a família: _ éh... Antônio Domingos e seus tios não estão para brincadeiras, com esse arsenal eles podem fazer uma guerra! 
Antônio Domingos não conhecia ninguém por aquela região da Corredeira, mas, nestas terras bem distantes da área de conflito com a brigada da polícia militar, eles poderiam trabalhar em paz tropeando seus animais de selas e transportes. A região da Corredeira nessa época longícua, tinha poucos fazendeiros, ainda havia muitas áreas que pertenciam ao governo federal que nessa época, era governado pelo presidente Venceslau Braz, havia também alguns posseiros de terra, que vinham de longe e invadiam essas terras cobertas por uma área de serrado e outras por matas nativas circundando uma ilha cercada por três rios de grande porte e um pequeno ribeirão.
Jerônimo Novato como era conhecido nesse sertão, deu algumas dicas aos tropeiros comandados por Antônio Domingos, indicou alguns fazendeiros que desbravavam suas terras com forças de burros e eles saíram no encalço desses possíveis clientes, viajando por toda região das “Lagoa Feia” e da “Volta Grande” comprando e vendendo seus burros, cavalos, éguas e mulas; com essa movimentação na região do sertão da Corredeira, Antônio Domingos e seus tios divulgavam o nome de Jerônimo Novato como fabricante de “fumo de corda”, que na época, era como ouro e o nome Jerônimo Novato passou a ser comentado em peso em toda a região onde existia vários armazéns nas encruzilhadas de estradas intermunicipais onde os colonos faziam suas compra anuais e muitos deles, vendiam sua safras, que nessa época não eram muito grandes, mas sim, para custeio de suas famílias, que essas sim, eram bem grandes, todas as famílias contavam com muito filhos e filhas e todos ajudavam na lida da roça junto aos pais.
Durante todos esses anos que se passaram desde a morte de dona Balbina, Euzébio havia desaparecido levando sua esposa por suas andanças pelo mundo, “Porcina” sua esposa, havia aceitado as condições do marido e juntos eles saíram sem rumo, viajando de déu em déu não voltando mais em suas terras, deixando abandonado o velho sítio do pai, Sr. Domingos José de Quadro, naquela região do chapadão. Nas andanças de Antônio Domingos e seus tios, eles encontraram Euzébio e sua esposa num lugarejo chamado de “Três Vendas”, ali, ele e sua esposa todos esfarrapados pelas andanças indevidas, foram acolhidos pelos três homens que indicaram a casa do primo Jerônimo como guarida.
Jerônimo Novato estava para começar sua safra de fumo e nessa etapa, ele iria precisar mesmo de mais gente para ajudá-lo, ele contava apenas com seu filho mais velho e mais duas filhas mocinhas, que sempre uma ficava em ajuda a sua esposa, que cuidava do pequeno José que contava apenas dois anos de idade, começava o período de chuvas naquele sertão e com esse período, também começava a safra de fumo que tinha de ser colhido nos dia chuvoso, para não danificar a folhas que ainda não estava em ponto de ser colhida.
Jerônimo Novato ficou surpreso com a chegada do primo Euzébio, pois, há muito anos ele não o via, mesmo quando ainda morava no sertão do Pedregulho; agora ele já se tornara homem feito, casado com dona Porcina, mas, continuava sendo aquele menino de olhar inserto, que por muitas vezes ele testemunhou seu olhar perdido num mundo peculiar, talvez a procura do desconhecido, ou de algo que ainda estava muito distante de acontecer no seu presente. Jerônimo Novato não deixava ninguém sem guarida, sua casinha embora pequena e humilde, sempre estava de portas abertas a todos que chegassem trazendo consigo a paz, até mesmo Antônio Domingos, que sabia ele ser dono de muitos assassinatos, ele recebia bem, pois sabia ele, que seu primo embora sendo justiceiro, nada faria a sua família, pois mesmo matando sem piedade, ele estava do lado da verdade e da justiça, que nessa época, era aplicada somente aos ricos coronéis e fazendeiros, mas com Antônio Domingos era diferente, ele via pela razão e nunca pelo tostão, ele não matava por dinheiro, ele matava para fazer justiça para aqueles injustiçados.
Instalando Euzébio e sua esposa num velho chatão nos arredores do mangueiro, Jerônimo disse ao primo que por hora eles comiam em sua casa, até que ele pudesse fazer uma pequena dispensa para eles, e nos momentos de folga um pequeno fogão nas dependências de fundo do chatão; Euzébio nada tinha a dizer, pois havia andado por mais de dois anos perdido pelo mundo acompanhado de sua esposa que sofria calada as privações, por muitas vezes passaram sem comer nada, alimentavam-se de frutas silvestres e bebia água nos bebedouros dos animais; pelo menos ali eles estariam seguros e tinham comidas todos os dias.
Já fazia quase seis meses que Antônio Domingos e os irmãos Valério estavam em viagem pelo sertão da Corredeira, a safra do fumo estava acabando e Jerônimo Novato precisa de suas mulas para começar novamente o preparo do solo para a próxima safra, mas ele sabia que o primo não tardava em devolver os animais, pois Euzébio tinha vindo parar ali, por informação do irmão que o encontrou nas Três Vendas; já haviam aparecido alguns comerciantes da região da Lagoa Feia para buscar fumo que Jerônimo e sua família fabricava num galpão feito de bambus e coberto de sapê e com as vendas em alta, Jerônimo pensava em realizar o sonho de adquirir um pequeno pedaço de terra onde ele e sua família pudessem viver em paz.
Jerônimo estava comemorando a colheita farta e as vendas de fumo que estava em alta junto da família e das pessoas que haviam ajudado na safra, entre eles, estava Euzébio e sua esposa Porcina sentados em volta a um tonel de vinho que Jerônimo havia comprado para esse momento especial em sua vida, quando eles avistaram ao longe, uma nuvem de poeira surgindo ao horizonte na velha estrada boiadeira que vinha do lado da Pindaíba, pensaram que poderia ser uma boiada que era comum nessa época, mas ao se aproximarem mais, puderam notar que se tratava de um tropa com vários elementos de burros e mulas sendo tocado por três cavaleiros perdidos em meio à nuvem de poeira; faltando menos de um quilômetro para chegar, um dos cavaleiros saiu em disparada rumo à casinha de Jerônimo Novato.
Chegando mais próximo, Jerônimo Novato ficou surpreso, pois aquele homem que achegava em sua casa era seu primo Antônio Domingos e sua comitiva, foi um momento de festejar em família, pois a safra não tinha sido boa somente à família Malta, mas também a seu primo Antônio e seus tios: Pedro e José Valério. Antônio Domingos havia feito um capital bem maior que saiu há seis meses, estava em suas mãos uma quantidade de vinte e cinco animais entre éguas, cavalos, burro e mulas e ali, junto da família, Antônio Domingos comemorou bebendo e comendo e dos animais que Jerônimo havia emprestado, ele mandou o primo escolher quatro da melhores mulas para repor o plantel da tropa de Jerônimo Novato.
Depois de descansar alguns dias junto à família Malta, Antônio Domingos despediu da família e seguiu junto aos tios de volta para casa na vila do Capivari, havia se passado mais seis meses do ataque que sofreu e agora era hora de voltar e ver como andava tudo por lá desde sua partida, iriam tropeando pelo caminho de volta, eles não tinham nenhuma pressa de chegar, faziam o mesmo caminho que vieram passando por Olhos D’água e a Capela do Salto, de lugar em lugar eles parariam e tentariam negociar seus animais. No momento da partida, eles reaveram suas armas que ficaram guardadas com Jerônimo Novato antes de partir, eles lubrificam todas as armas alegando não saber o que poderiam encontrar pela frente e ali, embainhadas nas capas de couros presas aos arreios, repondo suas sacolas de munições nos palas eles saíram de viagem mais uma vez e desta vez sem previsão de voltar ao sertão do Olhos D’água.   
Era uma segunda-feira bem de manhazinha quando eles partiram de volta para casa, o sol nem tinha mostrado seus primeiros raios e a comitiva de Antônio Domingos e os irmãos Valério já estavam marchando rumo à corruptela do Olhos D’água, da forma como marchavam, eles pernoitariam na Capela do Salto, lugar que já ser tornara conhecidos durante as tropeadas que fizeram nos últimos seis meses; mas eles também pensavam em parar em Olhos D’água para fazer negócio em dois cavalos que compraram de um fazendeiro da região da Corredeira, conhecido pelo nome de “Pereira”, ali, eles tentariam negociar os cavalos em troca de algumas mulas que para o lado que eles pretendiam ir, era de maior valor comercial que os cavalos que tinham em sua tropa.
Durante a permanência de Antônio Domingos no sertão da Corredeira, muitas coisas aconteceram pelos lados do Pedregulho, o coronel Fragoso tinha entrado em guerra com um fazendeiro visinho numa disputa de terras de propriedade do governo federal e esse tinha perdido na justiça a posse de tais terras. Como esses coronéis não gostavam de perder nesse tipo de demanda, coronel Fragoso iria tomar a bala essas terras a qualquer custo; o fazendeiro que havia conquistado o direito de posse dessas terras, (o Sr. Fortunato da Neves) não estava disposto a perder essas terras no cano de carabina como o coronel Fragoso havia mandado recado a ele, por isso, ele mandou um de seus homens de confiança atrás de Antônio Domingos, para que ele pudesse vir até o Pedregulho, para defender sua terras das mãos desse coronel sanguinário; tanto sanguinário quanto ao coronel Edmundo.
O mensageiro de Fortunato chegando à vila do Capivari e não encontrando tal justiceiro, seguiu viagem para as bandas da Corredeira, onde Raimundo disse poder encontrar com a família Valério comandada por Antônio Domingos; o mensageiro de Fortunato seguiu viagem rumo ao sertão desconhecido em busca do justiceiro do sertão.
Viajando sem parar por aquelas estradas desconhecidas, o mensageiro chegou à vila de Olhos D’água na noite anterior a saída de Antônio Domingos, quando ele chegou à vila, o tratador de cavalos do estábulo estava de posse do recado do tal sujeito, que precisava falar com ele a qualquer custo e com urgência; Antônio Domingos assustado com tal notícia pediu ao tratador que o avisasse quando tal homem chegasse da vila, ele e os tios ficariam escondidos atrás de uma velha tuia e pegariam de surdina o tal gajo que o procurava.
O pobre mensageiro de Fortunato era um homem de bem assim como seu patrão, não estava habituado enfrentar pistoleiros pela frente, mas a situação exigia dele nesse momento; quando o pobre homem vinha chegando ao estábulo, o tratador avisou os três que ficaram na espreita esperando a hora de dar o bote, como homens procurados pela justiça, eles não confiariam em mais ninguém até que provassem ao contrário; quando o mensageiro entrou no estábulo, foi surpreendido com três carabinas encostadas em seu peito e três sujeitos mal encarados mandando que erguesse as mãos para cima, o pobre homem de tanto medo chegou a urinar nas calças tremendo como uma vara verde ao sabor do vento numa tarde de verão.
Depois de se explicar por vários minutos consecutivos, Antônio Domingos deu ordem de abaixarem as armas aliviando tal homem do momento de tensão vivido e ali, ele contou com detalhes toda a trama envolvendo seu patrão e o coronel Fragoso e nesse momento, eles ouviram Antônio Domingos responder: _ esses coronéis não passam de um bando de desordeiros que mandam e demandam e que a polícia nunca fica contra eles, enquanto nós, que matamos para defender os mais fracos somos considerados desertores da lei e somos obrigados a viver no mato escondidos como animais!
Depois de conversar bastante com o mensageiro de Fortunato, Antônio Domingos seguiu junto com o homem com destino ao sertão do Pedregulho longe dali muitas léguas; Pedro e José Valério iriam seguir sem o sobrinho vendendo e comprando burros por aqueles sertões, mas Pedro sentia-se preocupado com o sobrinho, que apesar de matador, ele o admirava muito pela audácia e coragem na hora de enfrentar o desconhecido. Antônio Domingos seguiu junto com o desconhecido homem do fazendeiro Fortunato rumo à vila do Capivari, onde eles reforçariam suas munições para enfrentar os sanguinários homens do coronel Fragoso.
Enquanto isso na fazenda de Fortunato, o coronel e seus homens chegaram fazendo arruaças amedrontando todos os peões da fazenda, que eram pessoas de bem que ali trabalhavam dando tudo de si, mas recebiam seus salários todos os finais de meses; Fragoso estava acompanhado de seis homens bem armados que no terreiro da casa grande exibiam suas armas corcoveando seus cavalos gritando pelo nome do proprietário. Fortunato ao ouvir toda aquela algazarra, saiu na sacada de seu gabinete revidando com palavras educadas aos desmandos do coronel Fragoso, mas ali, na frente de vários de seus peões, o coronel Fragoso disse assim: _ te dou até segunda-feira próxima para desocupar minhas terras, que me pertence por direito, caso isso não aconteça, voltarei aqui com meus homens e colocarei fogo em todas as casas, não deixando sair ninguém de dentro delas, inclusive você, seu fazendeirinho de bosta!
Fortunato ouvia tudo com muito medo, pois conhecia os métodos desse coronel Fragoso e pelo tempo que havia mandado seu mensageiro atrás do justiceiro, já era para ele estar de volta com notícias, já estava perdendo a esperança e achando que tinha mesmo de deixar tudo para o tal coronel, pois nem mesmo o delegado da cidade estava mostrado vontade de interceder em seu favor; ali reunidos com seus peões, ele expressou o desejo de resolver a questão de forma pacífica, mas, não acreditava muito em paz pela arrogância do coronel e seus homens. Faltava apenas três dias dado pelo prazo do coronel, depois disso, somente Deus poderia colocar um jeito de barrar os desmandos desse homem frio e sanguinário, mas o que ele não sabia, é que Antônio Domingos e seu mensageiro estavam bem próximos da cidade do Pedregulho.
Os dois cavaleiros andavam ligeiros por entre as matas durante o dia e viajavam em estrada batida durante a noite, eles montavam dois cavalos pantaneiros de lida cutiana e de bastante resistência para longas viagens; era madrugada de sábado quando os dois cavaleiros chegaram nas dependências da fazenda de Fortunato, ali desarrearam seus cavalos deixando-os escondidos no mangueiro e os dois entraram para dentro da casa grande acordando o fazendeiro Fortunato que dormia preocupado com o dia “D”.
Na vila do Olhos D’água, os irmãos Pedro e José Valério ficaram preocupados com o sobrinho que seguia sozinho nesta empreitada perigosa, os três estiveram juntos nos últimos anos em todas as paradas, não seria justo deixar o sobrinho seguir só para Pedregulho e ficarem para trás no negócio de tropeiro que era Antônio Domingos que tinha criado ainda menino; conversando com o tratador de cavalos do estábulo, eles perguntam se havia alguma pessoas interessadas em suas tropas; o zelador do estábulo disse conhecer um homem que lidava com negócios de mulas e talvez pudessem comprá-los todos.
Dali mesmo eles despediram do zelador e seguiram a tal fazenda a fim de vender toda a tropa e seguir rumo ao Pedregulho, a fazenda ficava bem próxima as margens do rio Sapucaí divisando com a pequena vila de Lagoas das Éguas, (onde hoje é a cidade de Guará) ali, eles fizeram negócio com o fazendeiro; eles disseram ter de viajar para longe para ajudar um sobrinho numa empreitada perigosa pelas bandas da Franca do Imperador. O fazendeiro (o Sr. J. Vasco) vendo aqueles homens armados até os dentes, não teve nenhuma dúvida que se tratava de matadores profissionais e como o negócio não era ruim para ele, comprou toda a tropa para se ver livre desses sujeitos o mais rápido possível.
Com o dinheiro no bolso da goiaca divido em três partes iguais, Pedro e José Valério saíram em viagem rumo ao Pedregulho, ali mesmo eles atravessaram o rio no lombo de suas bestas saindo na vila da Lagoa das Éguas seguindo atalho por meio aos matos até a vila de Jeriquara já bem próximo a cidade de Pedregulho; dali em diante era mais um dia de viagem para chegar à tal fazenda do Fortunato que ficava algumas léguas ao lado da cidade pendendo para a divisa com o estado de Minas Gerais.
Desde a chegada de Antônio Domingos a fazenda, Sr. Fortunato passavam todas as coordenadas de defesas que poderiam ser usadas durante o ataque dos homens do coronel Fragoso, as casas dos colonos ficavam bem ao fundo da fazenda, portanto, os homens do coronel teriam de passar primeiro em seu terreiro para chegarem aos fundos da fazenda onde moravam seus peões. Antônio Domingos tinha seus métodos de defesa, assimilando de todas as formas os meios que poderia ser atacado, ele subiu no telhado da casa grande de onde ele tinha uma visão espetacular de todos os ângulos da fazenda de Fortunato, e ali, ele passou todo o dia de domingo fazendo pontaria em locais que poderiam surgir os possíveis alvos vestindo capas boiadeiras a serviço do coronel Fragoso.
A estratégica estava toda elaborada para a defesa, mas o que Antônio Domingos não contava, era com a chegada dos tios que vinham com sede de matanças nos corações, justiceiros como eram, eles só de ficarem sabendo de injustiças cometidas as pessoas mais fracas, eles já sentiam ódio em seus corações referentes às pessoas envolvidas; galopando suas bestas estrada a fora, Pedro e José Valério estava bem próximos a entrada da fazenda, ali eles pernoitariam dentro do mato, para chegar na fazenda no outro dia bem cedo, pois correriam o risco de serem mortos pelo próprio sobrinho, se chegassem na calada da noite naquele lugar ameaçado por homens sem escrúpulos.
Aquela noite Antônio Domingos dormiu em cima do telhado da casa grande, a qualquer movimentação estranha, ele abriria fogo sem perguntar quem era, ele estava preparado para matar ou para morrer se necessário, mas não deixaria que homens do coronel abusassem de pessoas inocentes, mulheres e crianças. O dia vinha abrindo sua cara e Antônio Domingos atento a todos os movimentos na fazenda, de cima do telhado ele podia ver a divisa de terra do coronel com as terras de Fortunato e não demorou muito para ele ver a movimentação dos homens atravessando a cerca de divisa, acompanhado do coronel que vinham a galope na direção da sede da fazenda; lá de cima ele gritou aos peões que estavam escondidos em pontos estratégicos da casa grande, para que ficassem em posição de ataque, mas que somente atacassem em último caso, se a casa grande fosse invadida, caso contrário, ele mesmo fazia o serviço de onde se encontrava.
O coronel e seus homens chegaram quietos pela frente da casa não vendo ninguém para a defesa, ele chegou a comentar com seu capanga, que eles poderiam ter abandonado a fazenda acovardados pelo medo e por ali ficaram alguns segundos espiando e planejando a forma de entrar na casa grande; de longe na entrada da fazenda, Pedro e José Valério expiavam a movimentação dos capangas do coronel; chegando mais próximo da sede em meio à mata, eles amarraram suas bestas e seguiram a pé por entre a pastagem que os camuflavam e devagarzinho eles se aproximaram das dependências da casa grande; escondidos atrás dos currais e galpões dos chiqueiros, eles podiam ver todos os homens que vinham chegando devagarzinho bem ao alcance de suas miras; protegidos por palanques de madeira, os dois irmãos aguardavam o primeiro tiro que sempre era disparado por Antônio Domingos em todas as empreitadas que participaram juntos.
Antônio Domingos de cima da casa esperava o momento mais propício a disparar com precisão, além de suas duas carabinas, ele estava de posse também de mais duas de propriedade de Fortunato, todas carregadas até a boca preparadas para guerra; de onde Antônio Domingos estava dificilmente ele seria atingindo por disparo de armas de fogo, o único perigo que ele corria, era alguém subir onde ele estava e atacá-lo pelas costas, portanto, antes de começar o tiroteio, ele espiou de todos os ângulos para ter certeza que não iria ser surpreendido.
Quando o primeiro homem do coronel aproximou a uma distância de mais ou menos cem metros, Antônio Domingos disparou o primeiro tiro esfacelando o crânio do homem mais próximo ao coronel levando-o ao desespero, em seguida ele ouviu vários disparos de defesa completamente desordenados atingindo somente as paredes da casa grande, escondidos atrás de arvores do quintal, os homens do coronel ficaram sobressaltados de medo de serem alvejado pelos disparos do atirador desconhecido; de onde Antônio Domingos estava, ele podia ver o braço de um dos homens escondido atrás de uma paineira, e então, ele resolveu atirar ferindo esse homem, seria mais um fora de combate, e assim, ele disparou sua 44 arrancando o braço do infeliz.
O coronel e seus homens em desespero começaram a disparar a esmo e nesse momento Pedro e José Valério entraram em cena disparando pelas laterais atingindo vários homens e Antônio Domingos concluía o ataque de cima do telhado levando a morte vários homens enquanto outros, tentavam fugir em disparada sendo alvejado pela carabina impiedosa do justiceiro. Foram muito minutos de tiroteio, como diziam no sertão, foi uma chuva de balas que levou muitos dos homens do coronel Fragoso a morte.
Com esse ataque frustrado na fazenda de Fortunato, o coronel Fragoso ficou ainda mais enfurecido, queria ele de qualquer maneira apropriar-se das terras de Fortunato, mas ele havia perdido muito dos seus homens e desta vez ele não podia contar com a brigada militar, pois ele é quem havia atacado a fazenda e o vizinho somente defendido suas terras que uma sentença judiciária havia lhe concedido direito de explorá-las. Eram mais de trinta homens que estavam nesse ataque e dentre eles, voltaram somente oito para a fazenda e alguns feridos por disparos feito pelos irmãos Valério; agora era hora de trégua, não tinha homens suficientes para invadir novamente a fazenda.
Depois da fuga do coronel e seus homens, era à hora de limpar a fazenda livrando-se dos corpos inertes ao chão vítimas dos disparos da equipe dos justiceiros, amontoando-os em um carro de boi, os peões da fazenda levaram esses corpos para serem jogados a rio grande que passavam bem no fundo da fazenda, ali, os corpos eram abertos no abdômen por facas e lançados a correnteza das águas, com esses corpos abertos ao abdômen, eles não submergiam e assim, ficariam livres das provas das matanças, mesmo que sendo por defesa teriam de responder processos na justiça perante a constituição do estado maior.
Passaram-se alguns dias depois do ataque e nas dependências da casa grande Antônio Domingos encontrava-se conversando com Fortunato: _ vamos ter de invadir a fazenda desse coronelzinho de bosta e acabar com o que restou de seus homens, temos de aproveitar enquanto ele está enfraquecido com a perda de vários de seus homens, invadimos sua propriedade de madrugada e esperamos a chegada do que restou dos homens e atacamos assim como ele fez aqui! Fortunato não era mau caráter, estava somente se defendendo das garras desse coronel sanguinário e na conversação ele respondeu a Antônio Domingos: _ não acho que será necessário essa invasão, creio que agora ele ficará longe de nossas terras respeitando a decisão da justiça.
Antônio Domingos e seus tios estavam acostumados lidar com esse tipo de homem no qual esse coronel tinha perfil, não se dava por vencido, apenas dava trégua a fim do inimigo pensar que tinha ganhado a batalha e em nova chance, eles atacariam novamente e desta vez, viriam preparados para tomar a fazenda de qualquer forma; com essa visão da situação momentânea, Antônio Domingos retrucou: _ o senhor é quem sabe, mais sendo assim, é melhor acertarmos nosso serviço, pois eu e meus tios vamos voltar para a Corredeira e continuarmos nossas tropeadas, pois é certo que o coronel virá em breve e aí, não saberei dizer se sairemos vencedores.
Nesse momento Fortunado sentiu-se entre a cruz e a espada, estaria seguro sem a presença dos justiceiros? Ou seria melhor ensinar seus homens a lidar com armas para que ficassem como guardas da propriedade? De todas as formas que Fortunato pensava, ele não achava conclusões relevantes ao problema presente, à única forma era eliminar o inimigo e depois enfrentar se necessário, um tribunal como réu, mas era necessário que ele desse segurança a sua família e as famílias das pessoas que trabalhavam para ele naquele sertão abandonado.
Não havia outro meio a não ser invadir a fazenda vizinha e liquidar com todos, poupariam somente mulheres e crianças e a ordem era de matar todos os homens e o coronel, para que não houvesse represaria dali por diante; esses tipos de ataques que havia nessa época, eram tramados somente entre os patrões e os capangas de fazendas, geralmente as mulheres não sabiam das atrocidades que seus homens faziam e sendo assim, as mulheres que viviam na fazenda do coronel Fragoso, cônjuges dos jagunços, nunca sabiam que os maridos eram jagunços sanguinários e perversos, e da mesma forma, a esposa e filhos do coronel, que tinham nele um homem de bem, portanto, esse ataque que eles pretendiam fazer, não seria parecido como represaria ao ataque sofrido por eles em dias anteriores.
Depois de estrategicamente planejada a invasão, Antônio Domingos acertou com Fortunato seus honorários, Fortunato estava agradecido com o apoio do amigo e seus tios e não teve dó de enfiar a mão na gaveta do cofre e pagar muito bem aos serviços prestados, com as centenas de mil-réis recebidos, Antônio Domingos e seus tios poderiam começar nova vida em qualquer lugar daquele sertão, era uma grana que daria para comprar um pequeno sítio, ou então cada um seguir seu rumo comprando e vendendo burros aos proprietários de terras daquela região ainda por desbravar. Mas a missão não havia terminado, Antônio Domingos e os tios tinham de invadir a fazenda na madrugada seguinte e eliminar o que restou na fazenda de Fortunato no dia “D”.
Naquele mesmo dia à tarde, Antônio Domingos e seus tio deixaram a fazenda de Fortunato rumo à fazenda de Fragoso, eles dormiriam nas proximidades da casa do coronel para que no outro dia bem cedo, eles dessem sequência no plano de ataque; ali, amoitado entre as arvores do pomar eles acompanhavam todos os passos dos homens que restaram; os homens se encontravam todas as manhãs no curral, onde recebiam as ordens do coronel para o trabalho do dia. Estava vespando a seis horas da manhã e já era possível ver o coronel andando de um lado ao outro no terreiro da casa grande, era possível pega-lo na mira da carabina, mas seria necessário esperar pelos homens que chegariam em seguida no curral. O sol vinha surgindo por de trás da colina quando os homens se encontravam reunidos ao lado do mangueiro; o coronel vendo-os, foi ao encontro deles e ali a cinquenta metros de distância, foi alvo fácil da carabina de Antônio Domingos que fez vários disparos seguidos alvejando todos os homens que restaram no último ataque, não foi necessário que os tios atirassem, somente ficaram na retaguarda dando apoio ao sobrinho justiceiro.
A empreitada estava concluída e não restava mais nada a fazer por ali, Antônio Domingos tirou as orelhas das vítimas e guardou em seu pala atreladas em um arame fino, juntamente com as orelhas do coronel Edmundo e do comandante da brigada militar que os atacou em seu rancho na vila do Capivari, e após a retirada das orelhas, eles tomaram seus cavalos e evadiram-se do local da emboscada; não existia mais coronel Fragoso e nenhum de seus homens, aquela fazenda seria vendida em breve, ou então a viúva tomaria conta dando trabalho digno às pessoas daquela região, pois todos diziam com uma única palavra, que a esposa do coronel Fragoso, era uma dama de muito respeito e de coração bondoso, que não gostava de como o esposo tratava seus empregados.
Com a morte do coronel Fragoso, a polícia da brigada militar estava em peso na busca aos assassinos, não tinha nenhuma pista concreta, mais o delegado suspeitava do tal Antônio Domingos, pois as cápsulas deixadas no local do crime, eram idênticas as que foram deixadas na emboscada do coronel Edmundo e na busca da vila do Capivari quando a brigada foi alvejada com vários disparos levando muitos dos soldados a morte; desta vez o delegado estava furioso de raiva, não seria possível que um único fora da lei seria tão ousado de atacar fazendas de pessoas de bem, de uma coisa ele tinha certeza, eles não eram ladrões, pois nunca roubavam nada de suas vítimas, teria de descobrir quem estava por de trás de tantas mortes.
Antônio Domingos e os irmãos Valério saíram em disparada na fuga, eles sabiam que o delegado estaria no rastro deles dali em diante em todos os recônditos daquele sertão, não seria muito prudente voltar a Corredeira nesse momento, o melhor que tinham a fazer era atravessar a divisa de estado com Minas Gerias e procurar abrigo na casa de Amadeu na pequena “Congonhas” se ainda estivesse morando por lá; do outro lado da fronteira de estado os homens da captura não iriam atrás deles, mesmo por que, eles deveriam ir ao encalço deles pelas bandas do Capivari, onde eles foram encontrados na última perseguição e no estado de Minas, eles dariam sequência na profissão de tropeiro, comprando e vendendo burros, até que as coisas acalmassem do outro lado do estado no sertão do Pedregulho.