Desabafo solitário
Todos nós viemos habitar o mundo com um
destino predeterminado por Deus, mas, cabem a nós administrar esse destino de
forma peculiar, fazendo das dificuldades, lições de aprendizado para que se
torne mais fácil a nossa estada nesse planeta.
Desde que nasci que a minha caminhada
terrena é uma eterna escola em que me faz um aluno nem sempre dedicado o
suficiente para que a caminhada seja menos dolorosa; nasci numa época muito
difícil, onde um regime militar dosava de modo bastante contundente o regime
constitucional de cada família, principalmente na educação. Na década de 60 em
que esse regime militar foi mais acirrado, as famílias eram limitadas a muitas
coisas e aquelas em que as desvantagens financeiras faziam-se bastante
presente, tudo era muito pior.
Desde muito cedo eu já vivia as
limitações dessa época; roupas escassas, comida de baixo valor nutricional e
uma educação muito restrita aos pobres, onde se aprendia a ler e a escrever em
escolas rurais, que embora sendo com professores abnegados que levavam seus
apostolados com a maior seriedade, os métodos de ensino da época não eram os
mais adequados para um futuro, no qual era inevitável; e assim, sofri na pele
todas as mudanças em que o mundo sofreu durante essa época revolucionária.
Vim de uma família de seis pessoas
contando com meus pais que dava um duro danado para que a família não sofresse
ainda mais as consequências desse regime; meu pai era lavrador dedicado,
trabalhava de sol a sol e a minha mãe era quem cuidava da casa e da família e
ainda ajudava na roça para que as despesas fossem melhores sanadas.
A vida foi passando e com ela, eu fui
crescendo sempre sofrendo as limitações da época; apenas com doze de idade eu
conclui o ensino que hoje chamamos de fundamental que ia somente até a 4ª série,
mas, que nessa época, era o ensino básico da maioria dos cidadãos brasileiros,
que tinha na força dos braços uma fonte de riqueza, pois era dessa força, que o
país precisava para crescer. O Brasil dessa época engatinhava no desbravamento
das fronteiras agrícolas e tudo que se plantava e colhia, era feito pela força
dos braços dos camponeses auxiliados pela lida dos animais que puxavam o arado
e a carroça, ferramentas essas, que serviam para lavrar o chão e transportar a
pouca safra que eram colhidas nas lavouras de pequeno porte daquelas fazendas
ainda minúsculas comparadas com os latifúndios de agora que a fronteira
agrícola se tornou imensas levando nossa pátria a divisas internacionais.
Eu ganhava a juventude e com ela, todas
as dificuldades em que passávamos; por vezes revoltava-me, mas, me faltava
capacidade para procurar caminhos alternativos para tentar uma vida melhor;
minha família por ser formada num regime embargativo que limitava as pessoas em
tudo, não admitia jamais que um filho fosse buscar novas fronteiras em terras
diferentes, e assim, mesmo eu não admitindo tais limites, não tinha alternativa
para desobedecer meus pais e sair vida a fora para buscar libertação das
algemas que me cativava e que cativava a maioria das pessoas daquela época. Com
os anos que passaram, governos foram tomando posse da república brasileira e no
início da década de 70, o general Ernesto Geisel tomou posse como presidente e
a ditadura que dava sinal de desgastes, foi dando lugar a uma pre-democracia, sucedida
pelo general João Batista Figueiredo, que no início dos anos oitenta começou a
enraizar-se de vez em nosso país.
Desde que comecei a ganhar o gosto pela
juventude, que minha vida se tornara uma luta constante; o caminho em que eu
trilhava os meus passos era sempre repleto de espinhos e pedras e por muitas
vezes feriram os meus pés deixando-me com cicatrizes profundas; mas, era
preciso seguir sempre no avante, pois, se a luta é constante, não adianta fazer
recuo. Muitas vezes vencido pelos desgastes do cansaço que me assolava,
deixei-me cair ao solo encostado pelos barrancos da estrada; mas, um soldado
nunca se da por vencido e mesmo com dores fortes pelo corpo, buscava coragem e
mesmo cambaleante, eu equilibrava-me apoiando a ponta da espada do desejo ao
chão, porque, eu precisava vencer mais uma luta, precisa buscar algo que nem eu
mesmo sabia o que era, mas, somente sabia que eu tinha de vencer e encontrar
esse algo que em algum lugar esperava por mim.
Na guerra constante em que a luta da
vida nos implica, como soldados bravios e destemidos que somos, erguemos nas
costas a mochila do conhecimento e nos braços seguramos empunhado o fuzil da
esperança, e mesmo tendo somente pântanos pela frente, seguimos com coragem e
determinação e foi assim, caminhando sempre com dificuldades, que eu conheci
pessoas e fiz amigos e desses, formei o regimento da minha pátria, a pátria de
um homem que deixou ideias preconcebidas tombarem por terra diante de batalhas
sangrentas, pois, não há nada que sangra mais um soldado em combate, do que
combater com sua própria família para defender suas ideias em busca de um único
objetivo: vencer na vida!
Um
soldado por mais destemido que ele possa ser sempre acaba se curvando diante de
uma mulher que desarma-lhe com um olhar e algema-o com um sorriso e comigo não
foi diferente; senti-me algemado com os encantos de uma linda mulher de olhos
verdes e cabelos castanhos e durante algum tempo, sofri os açoites
enfeitiçadores dos seus beijos e dos seus carinhos; mas, um dia libertei-me das
suas amarras e como um pássaro que não sabe mais viver fora da gaiola,
procurei- me prender no alçapão dos seus braços, mas, o soldado que vencia
batalhas intermináveis da vida, via-se vencido por o amor de uma mulher.
No regimento em que eu defendia meus
ideais, comandei e fui comandado, defendi e fui defendido e entre os meus
comandantes, muitos ordenaram-me mostrando os erros em que eu insistia em
continuar. Entre os comandos que recebia, um deixou-me um legado de grande
honra; nos momentos em que a batalha parece interminável, o soldado se
desespera e é preciso que seu comandante ordena-lhe que recuperes as forças que
nem mesmo existe, e foi assim, que esse comandante fez com esse soldado;
honrou-me com palavras e mostrou-me a importância de lutar e vencer.
Como dizem os poetas, a tempestade
passou e a luz do sol se fez novamente e com ela veio a bonança; aquele soldado
antes ferido e com cicatrizes, saiu da sua trincheira de guerra e enfrentou o
inimigo, inimigo esse, que muitas vezes esconde-se dentro de cada um de nós
através do medo; mas na luta constante da vida, expulsei esse inimigo e fui
buscar vitória, e a vitória veio. O soldado triunfou na guerra e no púlpito da
solenidade, recebeu sua medalha de honra ao mérito; a medalha veio em forma de
uma linda mulher, que na aurora dos meus dias, trazia para a escuridão, a luz
em que eu precisava para recomeçar.
O recomeço foi duro, as dificuldades
eram tamanha, pois ainda sofríamos os reflexos de uma ditadura, que apesar de
estar extinta após eleições que elegia governo democrático, sobrava a resseção
de dias amargos. Mas como bravio soldado veterano de guerra, eu caminhava agora
amparado pela luz de uma mulher que havia prometido ser minha e fazer dos meus
dias uma eterna primavera, onde as flores fizessem da brisa o alimento
essencial para a recomposição das forças; ceifei nos campos em que a vida me
deu, e nos horizontes coloniais de uma família, surgiu à bênção da união e
dessa união, os campos floridos traziam a nós esperanças renovadoras com a presença
dos nossos filhos e então, comecei a perceber que da eterna primavera, surgiam às
flores mais perfumadas, mas do caule de cada uma, eis que espinhos pontiagudos
feriam-me sagrando o coração do soldado, que mesmo sendo forte e destemido,
chorava e sofria escondido atrás de uma fortaleza que se fazia presente na vida
do lutador.
Mas um soldado sempre está preparado
para ser ferido e enquanto eu enxugava as lágrimas invisíveis pela fortaleza
interior, continuei empunhando a arma em que eu dispunha ao meu favor e dela eu
conquistei terras, aventurei-me por estradas nunca percorridas e em cada
acampamento que eu edifiquei nos dias de lutas, ergui a minha bandeira
hasteando-a no mastro da perseverança; mas, o soldado que conquistou medalhas
patenteadas pelas promoções que me levou a coronel, deixou pelo caminho
centenas de inimigos que auscultavam desejos de revanche; mas nenhum inimigo é
tão perigoso como àquele que vive ao seu lado, que divide o espaço de uma vida,
onde tudo é muito claro, o espaço de um lar, que ao lado do coronel deita-se
numa cama e ao sabor de beijos e caricias, apunhala-o pelas costas enquanto
dorme fazendo tombar por terra o bravo e destemido oficial.
Foi assim que esse oficial tombou na
luta da vida apunhalado pela dor da traição, pois, na dor em que tombava o
homem que lutou com bravura, surgia à figura do seu algoz que sorria, talvez na
intimidade dos seus pensamentos pudesse estar gargalhando por ver agonizar na
lama do desprezo imbuído pelo sangue que emergia do ferimento que o tombou. Mas
mesmo ferido pela traição do inimigo, perdoei-o e tentei fazer da dor, o
salutar remédio que pudesse amolecer o coração do lutador, que pelas asperezas
da vida, tornou-se duro e frio, pois no comando em que eu me via, zelava pelos
meus comandados sempre pensando no melhor para cada um, mas, um coronel também
comete erros e um dos mais graves erros desse coronel, foi pensar no seu
regimento, cuidar exclusivamente dos seus soldados esquecendo-se de cuidar de
si próprio.
Ferido e tombado por terra aviltado pela
pessoa que sempre confiou, como sempre fiz pelas trincheiras da vida,
reconstitui minhas forças e tentei fazer do algoz um aliado; mostrei técnicas
de combate, palestrei com a esperança de que as minhas palavras pudesse
tocar-lhe o coração, mas, a única forma em que minhas palavras atingia-lhe o
coração, era para aludi-la com maior ódio e o aliado em que eu pensei forjar
pelo exemplo, tornou-se o mais temido inimigo que agia em silêncio, formando
sob seus comandos, um exército para atacar-me em surdina tirando-me a chance de
defesa e depois de tantos encontros e desencontros, eis que a arma do vingador
atinge-me e fere-me. O inimigo não quis tirar-me a vida com as mãos, pois, na
sua sede de vingança, queria me ver agonizar até que minhas forças fossem
vencidas; mas, durante a formação dos batalhões em que eu constitui no quartel
da vida, também formei soldados fieis e entre esses, fui socorrido por um que
ainda cuida do velho comandante e apesar das medalhas de honra por méritos,
sinto-me um soldado raso diante da grandeza desse soldado que hoje está na
figura da minha filha amada.
Na hierarquia da força em que esse
soldado se formou, irei dar a ela todas as honras de bravura e lealdade, em
revista a tropa formada apenas por um soldado, ornarei seu peito com todas as
pompas de um militar leal a bandeira, dependurando na farda da luta, as
medalhas e patentes promocionais levando-a de degrau a degrau ao posto de
coronel e a ela, pedirei dispensa para repousar-me na reserva, pois ainda com
muitas feridas que me restam, começam surgir cicatrizes, pois o destemido
lutador encontra-se fragilizado pela dor, dor essa que não vem dos ferimentos
da carne que sangra, mas da alma que chora a derrota da batalha em que se
pensou ser a mais importante da vida. Hoje, acamado pelos ferimentos que ainda
sangra, encontro-me assistido por um anjo que surgiu como uma fênix, entre as
cinzas de um bombardeio com labaredas transformando-se em pássaro de fogo e
aqueceu o frio que corroía minha alma; mas, o velho coronel que eleva-se a
general da reserva, volta à vida como um simples soldado, lutarei na vida
enquanto força eu tiver e nas lutas constantes que surgirão pelo caminho,
lutarei com bravura e garra e nessa nova etapa de luta, estarei sempre amparado
pelas mãos carinhosas e devotada de uma guerreira: a fênix radiante... o
pássaro de fogo, igual a um dragão que protege a princesa em torre medieval,
serei protegido pela lealdade do seu carinho, da sua amizade... quem sabe não
serei honrado com a medalha do seu amor divinal, que enfeitará o peito desse
velho combatente!
Nos poros da mente vagueiam as
lembranças dos tempos de infância, que não voltam mais; foram tantas coisas que
fazem brotar dos escaninhos mais profundos recordações que ficaram perdidas. Os
passeios ao campo nos finais de tardinhas, as pescas de anzóis... caminhadas
por entre veredas floridas, os perfume das rosas e os coqueirais. Ah...
infância querida que não volta mais!
Quantos passeios que fiz no lombo da
besta, cavalgando sem eira em busca do nada; pés descalços, camisa aberta
sentindo a brisa soprar ao rosto e na boca o gosto da fruta colhida da rama.
Ah... infância querida que não volta mais!
Nas manhãs de inverno o sereno molhava,
a sola do pé que descalço estava, as pernas tremia e o frio assolava; uma velha
camisa de algodão tecido e um botão que faltava na altura do umbigo por onde o
vento passava; o caminho da escola feliz percorria, na sala de aula a
professora esperava... ela era tão linda, cabelos longos, sorriso esmero, flor
brejeira que falava. Ah... minha infância querida que não volta mais!
No regime da época que era ditada, o
general da nação a escola obrigava hastear a bandeira e o hino cantar; eu
cantava sorrindo e com os olhos eu buscava a professora encantada os seus
soldadinhos a reger; com a mão sobre o peito eu cantava contente, desfraldado,
maltrapilho, porque o que eu mais queria era minha pátria honrar. Ah... minha
infância querida que não volta mais!
Depois da regência o caderno eu pegava,
o beabá eu falava saltitando a voz; a professora querida, sobre mim debruçava,
minha mão a tomava me ensinava uma frase formar, eu escrevia e parava, para
cima eu olhava só para vê-la falar. Ah... professora querida, quando eu lembro
de ti que saudade me dá!
Que perfume gostoso que até hoje eu sinto,
os cabelos caídos no meu rosto encostar, por quantas vezes a lição eu sabia,
mas não eu dizia só para ela vir novamente me ensinar; na hora do recreio
quando todos saiam, com a sala vazia com ela eu ira ter, perguntava...
perguntava e ela me respondia e me respondia, mas no fundo ela sabia, que o que
eu mesmo queria era dela se aproximar. Ah... professora querida, como eu queria
ser grande para lhe namorar!
A infância passou e com o tempo ela foi
embora, só restando à saudade desses tempos de outrora e a imagem daquela flor,
que perfumou minha vida, com amor e dedicativa e se hoje eu transcrevo nessas
linhas horizontais, foi porque aprendi de suas mãos prestativas, os valores da
vida na arte de saber; aprendi a ser gente, a amar loucamente ao ponto de nunca
mais a esquecer; hoje deve estar tão velhinha, ou quem sabe já se encontra em
outro plano da vida. Ah... infância perdida, professora jamais esquecida que
nunca mais irá voltar! Poeta Violeiro
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